O Equador aos olhos de uma missionária

Diário de uma missão fala sobre atravessar fronteiras, sobre se doar e não olhar para as circunstâncias. Temos a oportunidade de entender um pouco melhor como funciona o trabalho missionário e, ao mesmo tempo, viajar ao Equador, sem sair de casa. A autora relata as belezas e os desafios de um trabalho voluntário realizado em cinco regiões equatorianas (entre comunidades ribeirinhas e povoados), durante 20 dias, na companhia de outros 40 brasileiros. Ela faz uma espécie de “diário de bordo” e conta, em detalhes, como foi essa viagem inspiradora.

Anelise Rodrigues é jornalista e teóloga. Ao longo dos últimos 13 anos, tem atuado como palestrante cristã e voluntária. Aliás, a partir de projetos missionários, essa jovem escritora já esteve em diversos países, como: Espanha, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e, é claro, o Equador. Essa vivência transcultural tem a ver com os valores de Anelise, afinal, ela acredita que a empatia é transformadora e que almas nobres são aquelas que se doam.

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Quem aqui sabe como é ser missionário? Será que basta uma bíblia embaixo do braço, uma mochila nas costas e o chamado para evangelizar? Não, não, não. Existe toda uma preparação para que ninguém se desestabilize – física e/ou emocionalmente – durante a viagem. Levar alento aos que precisam não é tarefa fácil. Há inúmeros povos vivendo em condições de miséria – material e espiritual – em níveis que nem imaginamos. Então, vencer os obstáculos de língua e cultura é apenas uma parte do pacote.

[E]xperimentei todas as peripécias possíveis de um contexto transcultural: fiz do campo meu toalete, da caneca meu chuveiro, do riacho minha lavadora de roupas, da fogueira meu fogão – além de ser quase coagida a mascar folhas de coca como se fossem chicletes (RODRIGUES, 2017, p. 10).

A autora vai contando suas “aventuras” de uma forma envolvente, quase poética. Nota-se uma preocupação com cada detalhe, cada palavra, o que nos faz sentir participantes dessa viagem – vendo o que ela vê, vivenciando o que ela vivencia. O realismo misturado ao literário é próprio de alguém com habilidades de interpretar o mundo e contar histórias sobre ele, características essenciais para um bom jornalista. Inclusive, a obra de Anelise Rodrigues me fez lembrar outra jornalista que eu adooooro, a Eliane Brum. [Quem não conhece os textos e os livros dela, corre!!!] 

Entre os eventos realizados em escolas e praças, as visitas às casas, as conversas com o povo local e a troca de experiências com pessoas de fé da região… O livro também trata dos choques culturais (alimentação, costumes, higiene, etc.), traz diversas expressões em espanhol e informações sobre o país. Embora não pareça, nada disso fica maçante – não nos sentimos em uma aula de história ou geografia. É tão interessante o modo como a autora compartilha esses aspectos, que só faz aguçar a curiosidade.

Para compor ainda mais a nossa “visita” ao Equador, a edição apresenta várias fotos dos locais, dos equatorianos, etc. Elas nos ajudam a ter uma visão melhor e mais ampla acerca dessa realidade, que tão pouco conhecemos. Eu, por exemplo, não sabia nada muito além de que existe uma linha imaginária que divide os hemisférios norte e sul.

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Ao iniciar a leitura, logo me perguntei: como a autora fará para incluir a perspectiva missionária nesse diário? Nos primeiros seis capítulos, somos apenas preparados, enquanto conhecemos, devagar, as experiências no Equador. É então que Anelise passa a fazer algumas discussões teológicas e, neste ponto, já estamos mais receptivos à profundidade que o assunto exige. Uma sacada genial! Aliás, tal abordagem no texto me fez enxergar como são feitas as missões cristãs. Ninguém sai por aí “empurrando Deus goela abaixo”. Pelo contrário, aproveitam cada situação como uma oportunidade de partilhar o amor que recebemos do Pai. Além disso, fica bem clara a diferença entre humanismo e cristianismo [só lendo para descobrir #ficadica].

Para mim, um trecho que define essa obra tão encantadora é o seguinte:

[…] pode-se viajar como um mero turista visitando construções, contemplando paisagens e caminhando com um sucinto vocabulário entre os dentes. Contudo, seria como ver a história pela metade, contemplá-la pela janela. Muito mais enriquecedor é viajar na disposição de viajante relacional, com movimentos mais vagarosos, memorizando descobertas; observando da mais rudimentar pedra às mais belas rochas. Sobretudo, conhecendo pessoas e como pautam suas vidas, vivenciando realidades, intercambiando modos e se doando a novos amigos (RODRIGUES, 2017, p. 132).

Se eu tiver que destacar algo negativo, diria que a linguagem é bem rebuscada. Não o tempo todo, mas há palavras complexas – que, como de costume, vou circulando para procurar no dicionário depois. Nesse processo, aprendi várias expressões novas e até aderi algumas bem interessantes. Talvez, simplificar atinja um público maior, mas, entendo que é importante respeitar o estilo de quem escreve e também nos desafiar um pouco como leitores.

Por fim, a mensagem que fica, no meu entender, é que no conforto de nossas cidades ou enfrentando desafios em comunidades carentes e distantes, podemos [e devemos] permitir que Deus use os talentos que Ele nos deu para ajudarmos ao próximo. E essa ajuda pode se resumir apenas à disposição de ouvir as dificuldades do outro, ainda que isso pareça pouco. O livro nos inspira a praticar o amor em sua essência, assim como os participantes dessa missão no Equador e tantos outros espalhados pelo mundo. Essas pessoas doam as próprias vidas para levar A vida a outros povos. Nesse sentido, Diário de uma missão é uma expressão de como podemos mudar o mundo com pequenas atitudes, pois, amor e fé não têm barreiras.

Resultado de imagem para diário de uma missão capaAutora: Anelise Rodrigues

Editora: InVerso

Páginas: 200

Edição: 2017

Idioma: Português

Acabamento: Brochura

I.S.B.N.: 9788555400551

Stars: 4

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