As duas versões literárias de A Bela e a Fera

Já vou logo avisando que terá comparação entre o clássico literário e o cinematográfico (versões Disney de 1991 e 2017) sim, sim e sim. Afinal, sou fruto de uma geração que cresceu assistindo à Bela leitora, ao feitiço em que as pétalas da rosa vão caindo e aos empregados que se transformam em objetos domésticos (fazendo trocadilhos com os nomes dos personagens. Ex.: Lumière > candelabro / Horloge > relógio). Antes de mais nada preciso dizer que, além de uma emoção enorme em poder ler o texto que inspirou as produções para as telonas (Madame de Beaumont, 1756) e a obra que a inspirou, em primeiro lugar, (Madame de Villeneuve, 1740) foi também uma grande surpresa. Continue lendo e descubra o porquê.

Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1711-1780) é uma francesa que quase se tornou freira, mas, aos 24, desistiu da vida eclesiástica, tornando-se preceptora, dama de companhia e professora de música da filha do duque Leopoldo de Lorena. Nessa época, chegou a conhecer o filósofo iluminista Voltaire, além de outros intelectuais e escritoras. Sua erudição, aliás, era bem incomum para as mulheres naquele contexto. Quanto à sua vida privada, há muitas especulações. Alguns dizem, por exemplo, que ela teve inúmeros relacionamentos amorosos, porém, só podemos afirmar que, em 1743, ela se casou com Antoine Grimard de Beaumont, com quem teve uma filha (depois, acabaram se separando). Sua primeira obra foi Le Triomphe de la vérité (1748), mas, tornou-se de fato conhecida por ter fundado a revista Le Nouveau Magasin Français (40 volumes de 1750 a 1780). O conto sobre a A Bela e a Fera, aliás, foi publicado no Magasin des Enfants, um periódico também destinado a meninas e moças, o qual trazia episódios ficcionais. Essa escritora-pedagoga até chegou a ter um pensionato para meninas da elite, bem como produziu romances epistolares.

Já a autora da primeira história de A Bela e a Fera, publicada dezesseis anos antes da popularização do conto de Beaumont, chama-se Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve (1685-1755). Sua versão apareceu no livro La Jeune Américaine ou Les Contes marins. Não há muitos registros sobre a sua vida, porém, sabemos que ela se casou muito jovem com o militar Jean-Baptiste Gaalon de Villeneuve, em 1706, com quem teve uma filha. Ficou viúva em 1711 e continuou consumindo o patrimônio até não restar mais nada. Ela começou a escrever já na meia idade, com mais de 40 anos!!! Sua primeira publicação foi La Phoénix conjugal, em 1734. Nessa época, casou-se novamente, agora com Crébillon, o mais famoso dramaturgo da época, contudo, o documento de oficialização da união data somente de 1748. Villeneuve publicou romances e contos de fada, sendo a obra mais famosa La Jardinière de Vincennes (1753), que teve mais de 15 reimpressões até 1800.

Como quero falar de MUITAS COISAS e depois ninguém vai aguentar ler TUDO isso… Resolvi separar em tópicos para facilitar a vida de vocês e censurar um pouco as minhas ideias infinitas [risos].

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>> UMA EDIÇÃO MAIS QUE LUXUOSA

Sou suspeita para falar da editora Zahar, em especial da coleção de clássicos, ainda mais se tratando do formato bolso de luxo. Já falei aqui que sou apaixonada por essas obras, pelo primor das traduções e pelo encanto dos projetos gráficos. Dito isso… Como não amar esse exemplar com as duas versões de A Bela e a Fera (1756 e 1740), com ilustrações COLORIDAS e uma apresentação tão incrível de ninguém mais ninguém menos que Rodrigo Lacerda, o diretor dessa coleção, escritor e tradutor reconhecidíssimo? Impossible.

Normalmente, as apresentações nas edições bolso de luxo são mais enxutas, imagino que para não ocupar tanto espaço. Contudo, devido à representatividade da obra (ainda mais em época de lançamento do live-action da Disney) e a particularidade dos detalhes que permeiam os contos e a vida das autoras, Lacerda “gastou” 20 páginas nessa contextualização [e a gente agradece cada palavrinha!]. Ele chegou a trazer algo que, para mim, foi totalmente inédito: a possibilidade de que a história tenha sido baseada em fatos reais, isto é, no “drama” real de um homem chamado Pedro Gonzaléz. Além disso, ainda explicou como surgiram esses enredos “animalescos”.

Sobre as ilustrações… O que posso dizer? Bom, fiquei surpresa quando vi que eram coloridas. Uma surpresa boa, feliz. Estava ansiosa para ver cada uma delas. Maaaaaas, como não são todas do mesmo ilustrador (algumas de Walter Crane e o resto… Sabe Deus), penso que perdeu um pouco de linearidade, conceito e até coerência colocadas assim, nesse bolo. Há momentos, por exemplo, em que a Fera é retratada de um jeito bem parecido com um lobo, noutros, parece mais um macaco gigante… Ahh, também tem a versão cachorro e a que se aproxima das feições de um javali. Não, não estou brincando.

>> A VERSÃO PODEROSA [E SEM GRAÇA] DE 1756

Alguém pode me explicar por que o conto de Madame de Beaumont se tornou o mais conhecido? Sinceramente, ainda estou processando.

O conto é bem curtinho, com menos de 30 páginas. Por um lado, isso é legal porque dá para ler rápido e logo descobrir tudo o que aconteceu. A autora constrói a história de um jeito bem leve, porém, é um choque para quem só conhecia a versão Disney (1991). Aliás, talvez este seja o motivo para eu ter gostado tão pouco do texto de BeaumontMinhas referências eram fortes e encantadoras… Até que, de repente, tudo aquilo que eu conhecia caiu por terra. Que fique claro: a Disney se inspirou nesse conto, mas, o que eles fizeram foi MUITO ALÉM [explico melhor alguns parágrafos adiante].

Há vários detalhes diferentes do cinema, como: a família de Bela cheia de irmãos, nada de feitiço com a rosa morrendo aos poucos, assim como nada de objetos domésticos fofinhos e o chato do Gaston. Nossa figura representativa de leitora apaixonada? Esqueçam. O fato de ela gostar de ler cabe em uma frase, duas, no máximo. Os motivos pelos quais o pai da moça encontra o castelo também são outros, bem como o que leva Bela a rever o pai e o seu retorno para junto da Fera. Entre eles, diga-se de passagem, não há uma relação crescendo, um monstro por dentro que se transforma em gentleman pelo amor… Apenas um pedido de casamento rotineiro e insosso. Em resumo, é tão… Pouco romântico. O que ficam são as mensagens “moralizantes” e “doutrinárias” do tipo: beleza não é tudo, tenha um bom coração, não sinta inveja e nem apresente tendências frívolas. Nada errado nisso, só não me cativou.

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>> A ESCRITA RICA EM DETALHES DE 1740

Quando comecei a leitura de Villeneuve, confesso que estava meio deprê devido ao conto anterior. Sei que isso tem a ver com o meu gosto pessoal por romances, isto é, enredos mais elaborados, complexos, cheios de conflitos e tudo mais. Então… Eis que me surpreendo com uma narrativa rica em pormenores. Thank God! Personagens e cenários melhor descritos, na verdade, tudo é melhor descrito… As tramas são entrelaçadas (em alguns momentos, até demais), a linguagem é elegante, a contextualização nos ajuda a sanar dúvidas e, inclusive, construir explicações mais interessantes para os fatos. A história tem mais profundidade nessa versão, digamos assim.

Para vocês terem uma ideia, a autora dividiu o texto em três partes: 1) desenvolvimento geral da narrativa, mais ou menos como a conhecemos; 2) narração da Fera sobre o que aconteceu consigo e com o castelo, de acordo com a sua perspectiva (impossível não lembrar de A fera em mim, resenha aqui); 3) explicações de uma fada, que tem um papel super importante (não vou dar spoiler, prometo!), acerca de cada detalhezinho de vários núcleos diferentes para que possamos compreender como a Bela e a Fera chegaram até aquele ponto.

Para mim, essas duas partes “a mais” são um baita diferencial, pois tratam de uma série de questões, expandem/ampliam nossa compreensão da trama. Maaaaaas, em certo sentido, a terceira parte tem tanto “ir e vir” em relação à genealogia de Bela que acaba dando um nó na cabeça.

Algo que me chamou bastante atenção também foi o fato de a obra nos fazer refletir sobre a sociedade da época (e a nossa também), não apenas a respeito da máxima “não se deixe enganar pelas aparências”, como também sobre a posição da mulher (quais virtudes ela deve ter, por exemplo), o modo como os casamentos eram “arranjados” (moças jovens e homens mais velhos, geralmente, com algum grau de nobreza), etc. É possível analisar, entre outros elementos, que alguns valores evoluíram e outros continuam exatamente os mesmos.

>> LITERATURA E CINEMA: VISÃO GERAL

Para fechar… Afinal, vocês devem estar cansados de ler… Só quero dizer que, na minha humilde opinião, a adaptação da Disney enriqueceu muito a narrativa com os novos personagens, um novo enfoque, etc. A história ganhou magia e doçura. A transformação pessoal da Fera, por exemplo, que a partir do convívio com Bela deixa de ser tão rude e se torna um verdadeiro príncipe por dentro, é muito mais interessante do que um príncipe virtuoso que é enclausurado no corpo de um monstro por puro capricho de uma fada mais velha.

o acréscimo de Gaston complementa perfeitamente a discussão sobre as aparências ao figurar o tipo oposto: um homem bonito por fora, mas, com um coração feio, arrogante, presunçoso, narcisista… Esse personagem não existe na obra literária, até porque a contradição entre Fera e Príncipe é muito mais exterior do que interior no caso do texto.

Ao “rejeitar” a primeira versão (Villeneuve, 1740), pode-se dizer que o estúdio perdeu a possibilidade de explorar uma série de detalhes, ao mesmo tempo em que acertou em cheio. Como assim? Oras, os clássicos animados da Disney foram feitos para o público infantil e uma trama tão complexa como a que a autora criou poderia não atingir as expectativas dos espectadores. Em contrapartida, a segunda versão deu brechas para que a equipe de produção desenvolvesse algo mais voltado para o tema das virtudes e explorasse uma pegada mais romântica, de sonho e fantasia – que tem tudo a ver com a fase da Disney na época do lançamento, em 1991.

 

Resultado de imagem para capa a bela e a fera zahar

Autoras: Madame de Beaumont e Madame de Villeneuve

Tradução: André Telles

Ilustrações: Walter Crane e outros

Editora: Zahar

Páginas: 240

Edição: 2016

Idioma: Português

Acabamento: Capa dura

I.S.B.N.: 9788537816042

Stars: 4,5

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