A história das bruxas de Oz deixou a desejar

A promessa do livro é oferecer um “antes de Dorothy em Oz“, na perspectiva de Elfaba – a famigerada Bruxa Má do Oeste. Você pensa que descobrirá elementos do passado das bruxas, o que aconteceu para que uma ficasse tão má e a outra tão boa (Glinda), assim como o verdadeiro motivo para os ventos do oeste serem tão severos com a viajante do Kansas e seus companheiros. Enfim, estamos de malas prontas para passear novamente pela Terra de Oz e, de quebra, desvendar uns mistérios. Contudo, não espere que este livro será tão encantador, alegre e colorido quanto O Mágico de Oz… De infantil, só o texto de inspiração mesmo.

Gregory Maguire (1954-) é um autor de histórias infantis, adultas e reinterpretações / recriações. Ganhou o título de best-seller do NYT por várias de suas obras, tais como: Confessions of an Ugly Stepsister, Lost, Mirror Mirror e The Wicked Years (série que inclui Wicked #1, Son of a Witch #2, A Lion Among Men #3 e Out of Oz #4). Ele é PhD em literatura inglesa e americana pela Tufts University e bacharel pela Universidade Estadual de Nova York, em Albany. Foi professor e codiretor no Simmons College Center for the Study of Children’s Literature de 1979 a 1985. Em 1987, cofundou a Children’s Literature New England (uma instituição de caridade educacional, sem fins lucrativos). Maguire também já fez palestras sobre arte e cultura no Isabella Stewart Gardner Museum e no DeCordova Museum. É conferencista, tanto em seu país natal, os Estados Unidos, quanto noutros países. Atualmente, mora com a família perto de Boston e é crítico do New York Times Book Review [importante é pouco].

Como vocês já devem saber, o livro Wicked inspirou o musical homônimo. A peça é famosérrima e considerada uma das mais bem sucedidas da Broadway – há 13 anos consecutivos em cartaz (o 11º musical da Broadway a mais tempo em cartaz na história). Desde a sua estreia, em 2003, já quebrou diversos recordes e conquistou muitos prêmios, incluindo o Tony Awards, considerado o Oscar do teatro. Aliás, essa maravilha toda estreou nos palcos brasileiros em março de 2016 [eu perdi]. Aproveitando esse momento, a editora Leya republicou o primeiro livro da série The Wicked Years – este da resenha.

A editora realmente caprichou e fez um trabalho magnífico no projeto gráfico, tenho que admitir. Quando vi o exemplar pela primeira vez, pensei: PRECISOOOOO!

Com ele em mãos, mal podia conter minha animação. Oz tem um lugarzinho especial no meu coração e eu estava doida pra conhecer o tal prelúdio das aventuras de Dorothy, Totó, Espantalho, Homem de Lata e Leão Covarde. Maaaaas… já comecei a leitura me decepcionando. O início é sombrio, cheio de trevas e pecado. Toda a construção infantil e delicada de Baum caiu por terra com Maguire. Eu tinha ouvido boas recomendações a respeito do musical… Que era uma história linda e bem humorada de empoderamento, aceitação, amizade e justiça. Não estava preparada para algo completamente diferente disso, logo de cara.

“Oz é um vulcão borbulhante ameaçando entrar em erupção e nos queimar com seu pus venenoso” (MAGUIRE, 2016, p. 201).

Eu sei… Vocês devem estar pensando: “Maaaas, era óbvio que seria mais… Maligno. Olha só o título e a proposta!“. Não, necessariamente. Eu esperava que a história de Elfaba, o bebê que nasce verde e acaba se tornando a temida Bruxa Má do Oeste, seria mais fantástica e menos militante. Ao longo da leitura, você se depara com momentos de sensualidade além da conta, questões sociais, políticas e econômicas bem marcadas, milhões de teorias sobre como o mundo foi criado, sobre Deus e como teria sido o surgimento dos Animais falantes (assim mesmo, com o A maiúsculo – uma coisa meio Nárnia), etc. Como eu já disse, e que fique bem claro, esta não é uma narrativa para crianças.

“Meu sentimento é que existe um mal verdadeiro espalhado pela terra” (MAGUIRE, 2016, p. 388)

Acompanhamos o crescimento de Elfaba, desde o nascimento, passando pela juventude, até o momento em que ela assume seu título de Bruxa Má. No meio disso, ela conhece a querida e doce Glinda [que não será tão querida e doce assim], alguns colegas de faculdade, encontra o amor e também umas pecinhas com as quais já estamos familiarizados, como o Mágico. A descrição da maior parte desses personagens, na minha opinião, é bem rasa. Fica tudo muito confuso, as vezes, até sem sentido. Parece que a história está indo do nada para lugar nenhum, as peças não se encaixam e você já nem consegue mais lembrar quem é quem, o que houve ou qual é o papel deles na trama.

wicked3O fato é que Wicked não se parece muito com a maior parte dos livros de fantasia que conhecemos. O sentimento é de que estamos lendo uma versão um pouco maquiada do nosso próprio mundo, ou seja, está mais para o lado do real do que para o imaginário. Uma sociedade preconceituosa, intolerante e corrupta, cheia de desigualdade social e uma religiosidade fundamentalista, distante da Verdade; um sistema político pra lá de caótico e uma economia instável. Sem contar as questões particulares, como amizades baseadas no interesse, o diferente sendo desprezado e humilhado pelos “normais”.

Por ser verde, por exemplo, a própria família de Elfaba a descreve como: treco, trocinho horrendo, monstrinho, uma aberração, mais um gafanhoto do que uma menina… Ou diz que o bebê está estragado, possui características perturbadoras e não tem a cor de um ser humano. Crescer em um ambiente assim não deve ser nada fácil e nem vou mencionar os outros desequilíbrios dos pais dela, assim como a cobrança em cima da garotinha quando a irmã mais nova nasce sem os braços. Essas situações parecem familiares a vocês?

“As pessoas que se dizem más normalmente não são piores do que o resto de nós. […] É com as pessoas que dizem que são boas ou melhores do que o resto de nós que devemos nos preocupar” (MAGUIRE, 2016, p. 437)

Toda essa visão antropológica é interessante sim, principalmente porque não vem marcada por um tom moralizante. Contudo, a leitura não deixa de ser arrastada. Confesso que fiquei contando os segundos para terminar a obra a cada parágrafo. Esperei me identificar com algum dos personagens, esperei me envolver com a perspectiva do que realmente teria acontecido antes e durante a chegada de Dorothy a Oz… Esperei em vão. O livro só me cativou no último capítulo, quando, surpreendentemente, o autor conseguiu arrematar todos os fios soltos, inclusive, usando alguns elementos do clássico de Baum para traçar uma história paralela, modificando uma ideia aqui e outra ali.

Tiro o chapéu para a quantidade de discussões sociais contidas no livro e pela forma como Gregory Maguire nos mostrou que conceitos definitivos e estanques não existem. No mundo real, as coisas são mais complexas e relativas do que simplesmente o bem versus o mal. Ainda assim, para mim, não foi suficiente. Não muda o fato de eu não ter encontrado ali uma narrativa consistente, com um desenvolvimento bem amarrado. Fiquei intrigada, incomodada e, eu diria, desconfortável [na maior parte do tempo]. Se isso é bom ou ruim, não sei dizer.

Resultado de imagem para wicked capa

Autor: Gregory Maguire

Editora: Leya

Páginas: 496

Edição: 2016

Idioma: Português

Acabamento: Brochura

I.S.B.N.: 9788544103890

Stars: 2,5

 

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