Uma dieta de matar

A mais nova série original da Netflix é bem… Inusitada. Um mix de Hannibal, todas as comédias românticas nas quais Drew Berrymore atuou e um quê de Família Addams. Não consegue imaginar como todas essas referências podem se relacionar??? Eu sei, é bem complicado mesmo e só assistindo para entender. Mas, já vou logo avisando… Prepare o estômago!

A campanha de divulgação da série Santa Clarita Diet foi [e continha sendo] muito bem montada. As brincadeiras com o universo das dietas ficaram sensacionais, com frases do tipo “Esqueça a dieta da Lua. Abandone o detox que não funciona. Essa aqui dá resultado de verdade“, “Prato do dia: pé-de-moleque“, “O lanche perfeito pra matar a fome no meio da tarde: suco surpresinha de morango“, “Vocês não detestam quando o jantar decide revidar?“… Tudo isso acompanhado por vídeos espirituosos em que confundimos alimentos do dia a dia com o tipo nada comum consumido por Sheila, a personagem principal.

Bom, já deu pra notar onde entra a referência Hannibal né? Isso mesmo, amigos e amigas, a Sra. Sheila Hammonds come carne humana. Ela passou por uma baita mudança, vomitou horrores (inclusive, o próprio coração) e, desde esse episódio, tornou-se o que chamaríamos, popularmente, de ZUMBI. Ninguém sabe como ou porquê isso aconteceu, mas ela sente muita… MUITA fome.

Barrymore e suas comédias românticas dão o tom engraçado e sarcástico ao qual a série se propõe. Afinal, impossível ver a atriz na tela e não pensar no milhão de vezes que ela já nos fez morrer de rir e/ou chorar de emoção. Foi a jogada certa, Netflix, parabéns! Então, não esperem algo como The Walking Dead, nem mesmo a elegância de Hannibal. Aqui a coisa é mais escrachada.

O bizarro disso é que o marido de Sheila, Joel (Timothy Olyphant), e a filha adolescente, Abby (Liv Hewson), são o sistema de apoio dela e embarcam nessa aventura doida de “caçar” o jantar. Enquanto isso, o casal – que mora no tranquilo subúrbio de Los Angeles, Santa Clarita – continua atuando no mercado imobiliário, como corretores. Sim, tudo muito normal por aqui… É uma família tão normal e unida quanto os Addams [só menos monstruosos, eu diria].

Para acompanhar esse amor todo… Teve até Fábio Jr. cantando Alma Gêmea de um jeito mais… Sangrento. Confira aqui.

Antes de tudo, Sheila era uma mulher toda certinha, metódica, mãe superprotetora e uma vizinha recatada. Maaaaas, depois de se tornar uma morta-viva, virou outra pessoa também. Cheia de energia, ousada, impulsiva, começa a sair com as vizinhas e chega até a falar para a filha não ir mais à escola porque é chato. Por outro lado, Joel também apresenta sinais de mudança. Era um marido devoto, dedicado e apaixonado, o que o leva a tentar ajudar a esposa o máximo que pode – incluindo matar pessoas para satisfazê-la. Ao passo que ele não consegue encontrar uma forma de fazer tudo voltar a ser como antes, começa a entrar em pânico com a história toda e o desespero não combina muito com a versão anterior.

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Essa família “comercial de margarina”, que mora num bairro “comercial de margarina” e tem vizinhos também no padrão “comercial de margarina” precisa planejar assassinatos [de um jeito, digamos, beeeem amador], desmembrar corpos e preparar o máximo de refeições possíveis para não deixar a mamãe zumbi faminta… Ao mesmo tempo, tentam despistar os vizinhos, a polícia, manter o casamento nos trilhos e ainda criar a filha. Isso, sem perspectivas de cura e com a pressão básica de saber que, caso não encontrem um jeito de Sheila tomar um tal remédio para paralisar o avanço da “loucura”, ela pode ficar totalmente descontrolada e chegar ao ponto de comer a própria família. Seu corpo vai começar a se deteriorar e é possível que se torne uma “zumbi normal” [estilo The Walking Dead, imagino].

O contraste entre uma situação tão absurda e a normalidade da rotina dos Hammonds acaba satirizando o ideal de família perfeita e nos faz pensar em todas as fachadas que construímos ao nosso redor. Essa família mostra – de um jeito cômico, mas muito real – que ninguém sabe o que se passa com o outro, nem mesmo os próprios vizinhos. Da porta pra dentro, Sheila é uma mulher canibal… Da porta pra fora, é uma corretora meio doida, que não larga sua garrafinha de conteúdo suspeito.

No fim das contas, se me perguntarem se é uma série divertida… Não, eu não achei. Talvez a acidez, o sarcasmo, a ironia… Tudo isso tenha deixado a produção com uma cara de comédia pastelão. É tão absurdo que não tem graça. O roteiro ganha ponto em discussão social sim, mas nem Drew Barrymore deu conta de fazer Santa Clarita Diet ficar menos forçada.

E os palavrões? Bom, todo mundo aqui sabe que eu não curto esse tipo de linguagem. Ainda mais quando aparece em excesso. Além disso, a personagem principal não ficou só faminta por carne humana, mas também cheia de libido. Até o instinto assassino dela é erotizado… Depois, para amenizar isso, ela tem crises de consciência – o que, na minha opinião, a faz parecer mais com uma vampira do que com um zumbi. Só acho.

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Ahhhh… E como falei no início, prepare o estômago! Tem muito sangue, mutilação… E parece MUITO REAL. Basta ver as propagandas da série para ter uma ideia. Nesse sentido, tiro o chapéu para a equipe de produção, mas, também digo que não é fácil assistir. Não há aquele canibalismo velado e classudo de Hannibal, é tudo preto no branco… Com a mesma voracidade que eu e você comeríamos uma fatia de pizza, Sheila devora os pedacinhos de suas vítimas. Ughh!

Posso dizer, por fim, que a perspectiva sarcástica a respeito da sociedade norte-americana [e a brasileira também, que vive imitando/consumindo/reproduzindo os mesmos valores] ficou ótima. Quanto ao resto… A Netflix tem investido bastante em produzir conteúdos para todos os gostos, ampliando a abrangência de temas e variando o máximo possível as construções narrativas. Assim, acreditam poder incluir/atingir/atrair um público beeeeem diversificado. Isso significa que Santa Clarita Diet pode não ser o tipo mais interessante de série para mim [e, por isso, a nota baixa], mas agrada outras pessoas, com gostos diferentes dos meus. Penso que o serviço de streaming está mais do que certo em expandir o leque de opções, diversificar. Só não contem comigo para a segunda temporada, se houver [risos].

*Texto escrito em parceria com Eloísa Barros.

Resultado de imagem para santa clarita dietCriação: Victor Fresco

Produção: Kapital Entertainment e Flower Films

Distribuição: Netflix

Gênero: Comédia / Horror

Origem: Estados Unidos

Status: em análise para renovação

Duração: 2017-

Temporadas: 1

Episódios: 10

Stars: 2,5

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