A tragédia pelo olhar de Mariana

Um lugar, um desastre, uma menina… Mariana. Desde 2015, esse nome acompanha um sentimento de perda e de destruição. Não há como esquecer o deslizamento que arrasou centenas de famílias, no estado de Minas Gerais. Este foi justamente o ponto de partida dessa obra cheia de brasilidade, amor e esperança. O modo como os sonhos de uma garota forte e corajosa são mesclados à dura realidade de uma desgraça é de encantar os menos sensíveis.

Ana Rapha Nunes (1981-) é professora de Língua Portuguesa, escritora e carioca da gema. Ainda pequena, mudou-se para Curitiba (PR) e continua por lá até hoje. O desejo de compartilhar histórias por meio das palavras surgiu tão cedo na vida dela que, para vocês terem uma ideia, aos oito anos, ganhou uma máquina de escrever dos pais [em breve, entrevista com a autora, contando vários detalhes. Fiquem de olho!]. Além das infinitas ideias, sempre em movimento, Ana já publicou dois romances: “A Lua que eu te dei” (2015, Editora Appris) e “Mariana” (2016, Editora InVerso).

Como se trata de um livro ilustrado, vale destacar o trabalho belíssimo de Karen Basso (ver fotos abaixo), o qual fez toda a diferença na composição do romance. Além de ilustradora, ela também é arquiteta e está a todo vapor. Já atuou na ilustração de livros e produtos, arte para websites, estampas para roupas infantis e criação de logotipos. Quem quiser conhecer mais sobre essa gaúcha talentosa, basta acessar o site oficial.

Voltando a falar de Mariana… A personagem principal mora em uma pequena cidade de Minas Gerais, chamada Timóteo, onde mantém contato direto com a natureza e nutre uma doce amizade com o primo Bartolomeu. Aliás, fofura em família é o que não falta nesse livro, principalmente o relacionamento entre a menina e a mãe, Fátima… Uma coisa bonita e rara de se ler. Dá para sentir a brasilidade – no enredo, na escolha dos nomes, no jeito de ser, no tema cotidiano. Confesso que sou fã de literatura estrangeira, mas esse nacional me cativou. Só demorou um tiquinho para eu me acostumar com a descrição física dos personagens, dos cenários e das atividades de forma tão detalhada, uma após a outra, o que, na minha humilde opinião, atrapalha o ritmo de leitura.

Aos poucos, vamos conhecendo Mariana, sua rotina, seus dramas infantojuvenis, seus pensamentos e sonhos. Aliás, um deles é conhecer o mar. Ahhhh, como a garota pensa nisso. Chega até a reunir imagens, fazer roteiros, principalmente depois que as possibilidades financeiras da família aumentam a partir do novo emprego de Etevaldo (o pai). Com isso, vem a mudança para outra cidade em Minas, uma que tem o mesmo nome da nossa sonhadora: Mariana.

Apesar de não ficar muito animada no início, ela acaba se acostumando com as novidades, fazendo amigos e até experimentando o primeiro namoro. Preciso dizer que essas discussões do universo adolescente se desenvolvem sem vulgaridades. A autora realmente encontrou o tom para falar das primeiras paixonites, do primeiro beijo e do crescimento emocional de uma forma leve, sem excessos. Já defendi aqui no blog o que penso sobre leituras sensuais demais para essa faixa etária, então, fiquei muito contente com a postura de Ana Rapha Nunes.

Enfim, tudo vai bem, todos estão adaptados e até curtindo a nova cidade… Quando um “fantasma” (como Mariana o chama) terrível aparece para mudar as coisas.

Nada é nosso neste mundo. A gente empresta por um tempo e de repente tudo nos pode ser tirado, a qualquer momento e sem uma razão (NUNES, 2016, p. 81).

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Tenho certeza de que todos vão lembrar dessa tragédia, mas vou contextualizar um pouquinho. Em novembro de 2015, as barragens da mineradora Samarco (Fundão), controlada pela Vale e pela BHP Billiton, causaram uma forte enxurrada de lama ao terem se rompido. O distrito de Bento Rodrigues, no município de Mariana (MG), foi devastado e 19 pessoas morreram, entre elas, funcionários da própria mineradora. Sem contar o impacto ambiental: uma infinidade de resíduos espalhados, pavimentação indesejada (quando a lama seca, transforma-se em uma espécie de cimento sobre a área, onde nada cresce nem pode ser construído), morte de milhares de animais aquáticos e da vegetação próxima à região atingida, alteração na cadeia alimentar, soterramento de nascentes e problemas no solo a longo prazo. As consequências do desastre fizeram e ainda fazem sofrer toda a população próxima ao rio Doce. O rompimento das barragens é considerado o maior desastre ambiental da história do país – de acordo com o Governo Federal, 600 famílias foram afetadas e ficaram sem abrigo. Nenhuma indenização poderá ressarcir o que foi perdido.

Na desgraça, não há vez para a beleza nem para a altivez. Todos são iguais. Não há nome, sobrenome ou endereço que mude aquela situação. São todos humanos, apenas humanos (NUNES, 2016, p. 85).

O modo como a autora relata esse acontecimento tão terrível, por meio da curiosidade da menina, do jeito jovial de lidar com o problema, é muito interessante e inspirador. Arrisco a dizer que esse manejo foi justamente o “tchan” do livro. Pena que isso já acontece quase no fim do romance, que já é bem curtinho, o que nos deixa com aquela vontade de ler mais a respeito, de se aprofundar nos detalhes. É quase como se começássemos a sentir falta de Mariana, antes mesmo de nos despedirmos.

Impossível não doer o coração ao pensar que essa não é simplesmente uma obra de ficção, comovente e singela. É a vida real, é a história do sofrimento de muitas famílias. Pessoas que talvez não tenham tido um final feliz [SPOILER WARNING] como Mariana e seus pais. O cenário é mesmo de perda, tristeza e destruição, mas o enredo delicado e repleto da simplicidade juvenil nos deixa uma mensagem de esperança. Não uma mensagem ilusória, fantasiosa, mágica – sonhadora, sim, mas também pertinente e possível. Se não acreditarmos na misericórdia divina, que nos concede alegrias e dias bons, não daremos conta deste mundo. Afinal, desastres como esse (piores ou na mesma proporção) acontecem com uma frequência assustadora. Só posso terminar dizendo que Mariana é uma doçura de livro, que, admiravelmente, trata de uma tragédia tão amarga.

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Autora: Ana Rapha Nunes

Editora: InVerso

Páginas: 110

Edição: 2016

Idioma: Português

Acabamento: Brochura/Ebook

I.S.B.N.: 9788555400278

Stars: 3,5

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