A versão da Fera

Antes ele era um caçador, agora é uma fera a ser caçada. Antes ele era um belo príncipe, que conseguia tudo o que desejava devido à sua posição e aparência, agora ele só quer se isolar do mundo. Por trás de toda beleza, ele escondia um coração cruel e orgulhoso. O que aconteceu para que o exterior revelasse o que ele tinha por dentro? Como ele se sentiu durante o processo? Explicar esses detalhes é a proposta de Serena Valentino em “A fera em mim“. Afinal, quem não gostaria de saber qual é a versão da Fera?!

Imagem relacionadaSerena Valentino é uma escritora com poucas publicações (por enquanto). Sua primeira obra foi Gloom Cookie (2001) – HQ – e, desde então, tornou-se conhecida por uma linha mais voltada aos mitos, ao gótico, além de investir em protagonistas femininas e mundos extraordinários. Ela também se aventurou a escrever uma série literária para a Disney Press [é justamente da qual estamos falando], que já conta com três títulos: “A mais bela de todas: a história da Rainha Má“, A fera em mim: a história do príncipe da bela e “Úrsula: a história da bruxa da Pequena Sereia“. Como podem ver, os vilões são o foco. Pelo que pesquisei, somente essa série foi traduzida para o português, então, os que quiserem se aventurar pelas demais obras da autora, terão que fazer isso em inglês mesmo. Atualmente, ela vive em São Francisco (EUA) com o namorado alquimista e não há indícios sobre sua idade e local de nascimento. Mais informações no site oficial.

Voltando a falar da Fera… Esse livro tem como base a animação da Disney (1991), porém, Serena tomou a liberdade de expandir as ideias bem como inserir as próprias inspirações. Um dos exemplos é a alusão ao sucesso de Oscar Wilde, “O retrato de Dorian Gray” e a presença das Irmãs (The Odd Sisters), criadas pela escritora, originalmente, para o desenvolvimento do primeiro exemplar da série [aquele sobre Rainha Má]. O ponto principal do romance seria fazer um resgate do passado do príncipe, antes de ter sido transformado em Fera, inclusive, explicando como ele acabou entrando nessa enrascada.

A história vai se desenvolvendo aos poucos. Descobrimos que Gaston era o melhor amigo do príncipe e que os dois viviam galanteando pelo reino. Quem diria, não é mesmo? Contudo, enquanto um era da realeza o outro era filho de um dos empregados. Isso, é claro, não os impediu de construir uma forte amizade. Bom, não tão forte assim… Mas, não vou ficar contando tudo né? O fato é que a vida desses dois bonitões era praticar a “arte da conquista” e se gabavam de não precisar contar com nada além da aparência para encantar as mulheres [no comments].

Tudo vai muito bem nesse mundinho superficial deles. O príncipe até conhece Circe, uma jovem extremamente linda, e resolvem se casar. O problema é que as coisas não eram exatamente como o príncipe imaginava [nada de spoiler!] e ele rompe o compromisso. Só não contava que a mocinha teria três irmãs bem, digamos, rancorosas e que ela mesma teria poderes para lançar uma maldição como vingança.

A única chance que ele teria contra tudo isso? Mudar suas atitudes arrogantes para alcançar a redenção. Porém, ele achou que tudo não passava de uma tremenda maluquice e continuou no caminho da crueldade e do orgulho. Até se envolveu com outra moça, Tulipa, deixando ainda mais claro o que pensava das mulheres: não existem quando não estão com os homens, devem estar sempre com roupas impecáveis e não precisam ter opinião. Mas, acalmem-se… Afinal, esse machismo todo tem a ver com a época em que a história está ambientada. A própria criação era diferenciada: enquanto os meninos tinham tutores para auxiliar em sua educação, as meninas tinham babás para ensiná-las a cozinhar, bordar, pintar, isto é, transformá-las em escravas esposas.

Conforme o feitiço progride, ele vai ficando mais grosseiro, mais enraivecido. Fora de controle. As atitudes terríveis que estavam enraizadas por dentro passaram a marcar também o seu rosto, seu corpo. Ele só se dá conta quando vê o retrato dele com Tulipa [aí está o link com “O retrato de Dorian Gray“]. Em comparação a outro quadro bem recente, ele parecia muito mais velho e embrutecido no que acabara de ser pintado. A Fera estava surgindo e todos no castelo acabaram sofrendo as consequências.

“Talvez isso, bem aqui, fosse sua punição: nunca saber como era amar” (VALENTINO, 2016, p. 158).

O resto a gente já sabe. Aquela moça diferente, que só pensava em ler, chamada Bela, surge para ganhar o coração da Fera. Só que no meio há uns detalhes que desconhecíamos e algumas formas originais de abordar a história dos dois. E por falar em histórias… Além de trazer personagens de “A mais bela de todas“, Serena também coloca pitadinhas do romance que viria na sequência “Úrsula“. Achei bem interessante essa tentativa de criar elos de ligação entre a série. Bem espirituoso.

Como nem tudo são flores rosas… Devo confessar que tinha outras expectativas. Pensei que todo o enredo estaria mais focado na Fera – e até parece que será assim no início, mas logo essas questões se tornam superficiais. Acaba sendo uma forma de recontar a história que conhecemos (filme mencionado), adicionando uma ou outra explicação/novidade. Sem falar que não há muito aprofundamento nos acontecimentos, de um modo geral. Nesse sentido, pode-se dizer que é uma obra pra ler em um dia – bem fluida, bem padrão Disney. O problema disso é que nos deixa com dúvidas, curiosos, com vontade de saber mais. Principalmente no final, que, ao meu ver, foi um tanto apressadinho.

Mas se eu acho que vale a leitura? Ahhh, vale sim.

Resultado de imagem para a fera em mim livro

Título original: The Beast within

Autora: Serena Valentino

Editora: Universo dos Livros

Páginas: 192

Edição: 2016

Idioma: Português

Acabamento: Brochura

I.S.B.N.: 9788579309977

Stars: 3

 

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