Pela toca do coelho branco

Alice é um clássico, um fenômeno, não há como negar. E não faz sucesso somente como obra literária, mas também por meio das produções cinematográficas inspiradas nesse universo – principalmente a versão animada da Disney (1951) e as duas em live-action de Tim Burton (2010 e 2016). As primeiras, inclusive, eram as referências que eu tinha antes de, finalmente, ler as palavras de Lewis Carroll. Sinceramente?! Fiquei perdidinha. Mas até que foi uma sensação boa – acho que esse clima de contradição pega!

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Fonte: https://migre.me/vQKXO

Falando em se perder, a história do autor dessa obra aclamadíssima é uma confusão só. Já começa com o fato do nome que mais conhecemos ser um pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898). Esse britânico cheio de mistérios se aventurou pelos romances, contos, fábulas e poesias, mas também desenhava, fotografava, foi professor de matemática e até um reverendo anglicano. O pai de Carroll, aliás, era pastor e incentivava o filho a seguir seus passos na vida religiosa, porém, o interesse pelos números o levou a docência em Oxford. Foi quando ele conheceu Henry Liddell, o qual se tornou um grande amigo. Este homem era pai da famosa Alice Liddell, fonte de inspiração para Alice no País das Maravilhas (1865) – livro que o consagrou como escritor. Há também uma série de “insinuações” a respeito das fotos que Carroll tirava, tendo como modelos meninas entre 8 e 12 anos. Bom, acredito que isso não é tão importante assim agora [deveria ter sido investigado na época, oras!]… O fato é que Lewis esteve sempre rodeado por crianças, primeiro pelos irmãos (teve 10, ao todo), depois pelas tais modelos. Isso, com certeza, fez diferença em sua perspectiva e em sua forma de contar histórias.

Nessa edição MARAVILHOSA da Editora Zahar (visite o catálogo da coleção Clássicos Zahar – já falei sobre ela aqui), as duas aventuras de Alice estão reunidas com o maior capricho – tanto Aventuras de Alice no País das Maravilhas quanto  Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Além disso, somos presenteados com as belíssimas ilustrações de John Tenniel (1820-1914) – as quais ficaram marcadas como seu trabalho mais significativo.

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Fonte: https://migre.me/vQLHy

É para ficar babando desde a capa dura até o último virar de páginas. No miolo, também encontramos vários dos personagens e das peripécias que fazem parte do imaginário da maioria das pessoas. A queda na toca do coelho branco, a experiência pra lá de inusitada de encolher e esticar, conversas com uma lagarta com ares de intelectual, um chá maluco com um tal de Chapeleiro… E a menina ainda teve de dar conta da Duquesa mal humorada e da Rainha que só sabe dizer “Cortem a cabeça!”. Dizem que ao criar os personagens, Carroll se baseou em pessoas da sociedade e da aristocracia inglesa e acho essa ideia bem plausível.

Ambos os livros contêm inúmeros problemas de matemática e lógica, enigmas, charadas e poemas. Foram justamente esses detalhes que me deixaram um pouco distante da obra ao longo da leitura. As referências à cultura inglesa (as quais devem fazer muito mais sentido em inglês e entre os ingleses, of course) são evidentes, mas, na maior parte das vezes, indecifráveis – não chega a atrapalhar a fluidez da leitura, contudo, fez com que eu me sentisse desconectada, “boiando” mesmo.

Embora essa questão até seja importante, não ofusca o brilho de ver a mente de uma criança em ação. Na verdade, é como estar dentro de sua cabeça… Sentimos o que ela sente, pensamos o que ela pensa, enxergamos como ela enxerga. A coisa toda parece fazer parte dos devaneios da menina, pois ela fala muito consigo mesma. Enquanto isso, as conversas com os personagens que encontra pelo caminho, apesar de malucas e até fora de contexto, trazem lições para a vida misturadas às inconstâncias do País das Maravilhas. Nesse sentido, não posso deixar de destacar que o livro é MUITO dinâmico – há novas situações em novos ambientes e com personagens diferentes a todo momento.

Nas duas narrativas, Alice está em busca de algo: achar o caminho de casa, no meio de tantas contradições. Inclusive, o diálogo com o gato de Cheshire sobre qual caminho seguir [foto abaixo] é o meu PREFERIDO, com certeza. Como em um jogo (croquet, xadrez…), ela vai avançando passo a passo, de maluquice em maluquice, enquanto a história é tecida. Até o contexto escolar acaba sendo satirizado no processo, principalmente a linguagem e os conteúdos descontextualizados – que tornam o aprendizado entediante e monótono. Como disse, há boas críticas rolando, enquanto o autor traça uma ponte entre o mundo real e o imaginário. Isso tudo é feito de maneira sutil e, provavelmente, não passe de uma tremenda brincadeira para o olhar infantil. Por isso, penso que ler depois de adulto nos permite enxergar os “pulos do gato”.

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A divisão dos capítulos também é um caso à parte, bem instigante. Conta-se um trecho da história de modo que ela termine com aquele “gostinho de quero mais”, em uma espécie de clímax – o que motiva a leitura contínua, não dá vontade de parar até descobrir tudo o que aconteceu. Apesar disso, nada realmente se desenvolve. Muita coisa fica inacabada, pela metade. Não sei se faz parte da estética nonsense, mas o que acontece com bastante frequência é a maluquice de um personagem dizer que vai contar alguma coisa (como a Tartaruga Falsa e o Rato), a conversa caminhar para qualquer outro lugar e ficarmos sem saber nadinha de nada.

Portanto, não pense que é possível traçar uma linha de raciocínio, entender cada um dos acontecimentos… Nem perca o seu tempo procurando os porquês. É simplesmente uma história que começa e termina com ares de sonho… Daqueles que não queremos acordar tão depressa. Nonsense, um tanto absurdo, desconexo, mas também envolvente e cheio de verdades. O autor abre e fecha cada livro com poesia, deixando claras suas intenções: estimular a imaginação das crianças. Ahhh, e como ele fez isso muito bem! No fim das contas, quem sonhou: Alice? Carroll? Ou todos nós?  Tudo é possível no mundo da fantasia.

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Autor: Lewis Carroll

Editora: Zahar

Páginas: 317

Edição: 2009

Coleção: Clássicos Zahar (bolso de luxo)

Idioma: Português

Acabamento: Capa dura

I.S.B.N.: 9788537801727

Stars: 3

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