Vamos falar sobre Alzheimer

Entrar em uma discussão sobre essa doença tão devastadora, sem ficar tonto com explicações científicas? Só com este livro mesmo. Ele aborda as angústias dos que a enfrentam, as dificuldades dos cuidadores, as falhas e os pontos positivos do sistema. Tudo isso enquanto nos coloca no meio de tais experiências, com muita sensibilidade, cuidado, autoridade e respeito. Com certeza, a autora e esta obra entraram na minha lista de favoritos!!! Foi o livro mais profundo, comovente e introspectivo desse ano [já estamos em setembro, duvido que outro vai superá-lo].

Lisa Genova (1970-) é uma escritora norte-americana, que chegou ao mundo da ficção com tudo! Claro que, pelo sobrenome, também não podemos negar sua descendência italiana [nossa afinidade já começa aqui… Risos]. Ela também é Ph.D. em neurociência pela Universidade Harvard (1998) e faz palestras ao redor do mundo, justamente sobre temas como Alzheimer, traumas cerebrais e Autismo. A obra em questão foi a sua estreia em textos literários – uma história que também merece ser contada. Vocês acreditam que, primeiro, ela lançou mão de uma publicação independente (em 2007)… Mas o livro fez tanto sucesso que a Simon & Schuster Inc. resolveu comprá-lo e relançá-lo dois anos depois?! E a obra já foi traduzida para mais de 37 idiomas, entrou na lista do World Book Night de 2013 e esteve entre os best sellers do New York Times por mais de um ano e meio. Lisa tem outros três livros publicados: Nunca Mais Rachel (Negligência Esquerda), Com amor, Anthony (Autismo) e Inside the O’Briens (Doença de Huntington – ainda sem publicação no Brasil). Nem preciso falar que já quero todos né?

É importante dizer que Para Sempre Alice é mais do que uma explicação sobre o Alzheimer ou a história “deprimente” de alguém que foi acometido por essa doença tão feroz. A autora consegue humanizar a exposição dos sintomas, as consequências para suas “vítimas”, o processo de diagnóstico, o tratamento e as pesquisas nesse sentido. Ela faz tudo isso nos colocando frente a frente com o núcleo familiar de uma professora universitária, pesquisadora renomada, com estudos voltados para a neurolinguística. Logo de cara, sentimos a inteligência de Alice Howland (personagem principal) em suas falas e até na forma como ela é descrita [é bem provável que isso seja um resultado da carreira acadêmica da própria escritora], criamos uma antipatia por seu marido [eu criei, pelo menos], John, desde o início e vamos entendendo, aos poucos,  a dinâmica do casal com os três filhos.

Não sei se é porque a linguagem também tem um papel extremamente significativo para mim e minha avó tem essa doença, mas eu embarquei na narrativa completamente, ao ponto de ficar com o coração apertado e uma vontade de chorar, quase inevitável, a cada virar de página. Afinal, nós vamos acompanhando Alice – essa mulher na casa dos 50 anos, cheia de certezas, com uma memória impressionante, que acredita estar no controle de tudo… E, de repente, percebe que os sintomas que pensou serem de uma “simples” menopausa ou de estresse por conta da sua rotina de trabalho tão intensa, eram na verdade sinais de uma doença degenerativa incurável. Lisa Genova faz com que a gente se sinta na pele de Alice, ainda que a obra não seja escrita em primeira pessoa.

[AVISO DE PEQUENOS SPOILERS]

Aliás, nós temos acesso a informações e vemos coisas que a personagem não vê. Sabemos quando ela se repete (por achar que não tinha falado aquilo ainda), acompanhamos seus pensamentos confusos e também quando ela esquece de um rosto ao qual acabou de ser apresentada. Não, isso não é normal e muito menos engraçado. Me fez pensar no quanto precisamos ficar atentos aos nossos lapsos de memória, a qualquer tipo de confusão mental ou “apagões”, porque o diagnóstico de doenças no cérebro, em muitos casos, fica comprometido devido à nossa negligência. O Alzheimer de Alice é de instalação precoce, mas a situação fica ainda mais complexa em pessoas idosas… Achamos que trocar nomes, esquecer compromissos ou o que íamos dizer, no meio de uma frase, é natural da idade. Nem sempre é.

A autora vai descrevendo as situações, com naturalidade, e nos dá a incumbência de fazer as conexões. Confesso, é doloroso demais. Nos estágios iniciais, por exemplo, imagine a sensação de impotência e insegurança? Perder-se na universidade em que leciona há anos? Não fazer ideia dos passos e dos ingredientes necessários para uma receita de pudim que prepara desde que era criança, todo Natal? Esquecer de uma conferência para a qual passou a tarde toda se preparando? É assustador. Controle? Já não existe mais, porque não se pode nem mesmo confiar na própria mente. “Onde fica o banheiro?”, “Qual é o assunto da aula de hoje?”, “Quem é esse homem sentado ao meu lado?” Tudo fica sob uma névoa, que não vai embora. Só fica mais e mais intensa. É necessário depender das outras pessoas, se deixar cuidar e saber que a cada dia haverá menos certezas.

O modo como John lida com a situação é compreensível, mas muito triste. Ele parece sentir como se Alice já tivesse ido, desconsidera o que ainda restou de sua esposa – priorizando a si mesmo, os próprios medos e as oportunidades na carreira. A reação de cada membro da família e dos colegas de Harvard também nos dá um panorama do quanto deve ser angustiante ver alguém que se ama indo embora, sem chance de voltar. E mais, a pessoa continua ali, fazendo parte do cotidiano de todos, porém, não é a mesma. Nem parece estar realmente presente. A cada momento de lembrança, renasce a expectativa de que ela ainda esteja lá, de alguma forma. Qualquer frase parece “aquela” frase, mas não passa de uma memória nossa e não do outro.

O final é “aberto”, digamos assim. Apesar de eu gostar que as histórias terminem de um jeito mais elaborado, compreendo a escolha da autora. Não há motivos para retratar Alice definhando cada vez mais ou até morrendo. É melhor abrir espaço para perspectivas particulares sobre os dias dela com a doença avançando. Obviamente, somos direcionados… Vemos a piora dos sintomas, a perda de autoconsciência de Alice, ela deixando de reconhecer os familiares. Contudo, seria triste demais vê-la ainda pior, afinal, nos apegamos à personagem. Se querem saber, acho que eu nem teria aguentado um fechamento desses.

O que mais posso dizer? Foi um dos melhores livros que eu já li. De uma sutileza, profundidade e escrita impecável… Daqueles que deixam os leitores encantados. Você quer continuar ao lado de Alice, quer saber um pouco mais sobre como ela se sente e como está lidando com o passar dos dias. Ela se torna importante, mesmo sendo apenas uma personagem, porque representa centenas de pessoas que estão sofrendo ou já sofreram com ou por causa do Alzheimer. Eu nunca fui fã de livros com essa temática, mas Lisa me fez entender que eles são uma oportunidade de conhecermos a realidade do outro, de estarmos perto, mesmo que distantes. Ainda que trate de uma doença tão avassaladora para todos os envolvidos, a leitura nos acolhe e nos abraça.

Resultado de imagem para capa para sempre alice livro

Autora: Lisa Genova

Editora: Harper Collins Brasil

Páginas: 283

Edição: 2009

Idioma: Português

Acabamento: Brochura

I.S.B.N.: 9788520940624

Stars: 5

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