Dá sono mesmo

livro_murakami_3Este é um livro para ler em uma sentada, se perder nas belíssimas ilustrações e… morrer de sono. Sério! Eu não sei vocês, mas eu acabei dormindo [risos]. Esse papo todo de insônia é um baita relaxante natural. De verdade, experimentem!

Gracinhas à parte…

Haruki Murakami (1949-) é um escritor e tradutor bastante popular, considerado um dos autores mais importantes da literatura japonesa atual. Sua obra já foi traduzida para 42 idiomas e recebeu importantes prêmios, como o Yomiuri e o Franz Kafka. Em seus trabalhos de tradução, agraciou os japoneses com as obras de F. Scott Fitzgerald, Truman Capote, John Irving e Raymond Carver. A Alfaguara (Selo da Editora Objetiva) é a responsável pela publicação dos livros do autor no Brasil. Como considero que as ilustrações fazem parte da autoria e, neste caso, são bastante significativas, resolvi falar também de Kat Menschik (1968-). Nascida na Alemanha, estudou artes gráficas em Berlim e Paris. Na metade dos anos 1990, tornou-se uma das fundadoras da revista de quadrinhos A.O.C. Trabalhou ilustrando jornais e revistas antes de iniciar sua carreira como ilustradora de livros.

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Na verdade, esse conto foi publicado, pela primeira vez, há mais de 20 anos. Agora, ele ganhou edições mais charmosas, de capa dura, diagramação moderna e ilustrações luminosas (literalmente). Em linhas gerais, temos uma família normal, com uma vidinha normal. Pai, mãe e filho. A narração é feita pela mulher, que está na faixa dos 30 anos e não consegue dormir. Como ela mesma diz, não se trata de uma simples insônia… A coisa é séria. Já são 17 dias sem pregar os olhos.

O mais estranho é que ela não estava vivendo em um estado constante de sonolência, estava normal, saudável, alerta, consciente, lúcida. Como pode? Confesso que, ao longo da leitura, fiquei tentando compreender essa personagem sem nome e o que tinha por trás desses dias e noites em claro… Passei o livro todo esperando que o autor fosse me explicar essa maluquice com algum acontecimento surpreendente, porém, nothing happened.

A vida dela? Difícil encontrar uma mais previsível. Quase uma peça teatral, encenada por uma temporada inteira. Marido, filho, natação, casa, jantar, conversas vazias… Tudo sempre igual.

Essa é minha vida. Ou melhor, era minha vida antes de eu não conseguir dormir. De um modo geral, todos os dias eram praticamente iguais, uma mera repetição. Eu escrevia um diário, mas se eu me esquecesse de escrevê-lo dois ou três dias já não sabia mais diferenciar um dia do outro. Se eu trocasse o ontem pelo anteontem, não faria diferença alguma. Às vezes eu pensava, “que vida é essa”, mas nem por isso sentia um vazio. Eu me sentia simplesmente assustada. Assustada por não conseguir discernir o ontem de anteontem. Assustada pelo fato de eu pertencer a essa vida e ter sido tragada por ela (MURAKAMI, 2015, p. 28).

[SPOILER WARNING]

Só quando cheguei ao final do conto e tentei mergulhar mais a fundo na história, foi que eu percebi a grande metáfora do livro: o sono representa a vida pacata e vazia de significado que ela levava com a família e a insônia, o despertar ou o reencontro consigo mesma e a beleza da vida. Ela estava acordada para poder se refazer como mulher, como pessoa. Para mim, é nisso que consiste a sacada de Murakami.

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Ele nos fez mergulhar, junto com a personagem, nesse mar de tédio e rotina, de solidão e atividades cronometradas, até que fôssemos capazes de sentir na própria pele o vazio em que se encontrava essa alma. Demoramos para nos dar conta disso porque também somos levados à mesmice e ao conformismo, mais envolvidos pelo absurdo de um ser humano não conseguir sobreviver tanto tempo sem dormir do que pelas razões disso.

Por fim, ao longo de todo esse processo, ela esteve dormindo? Sonhando? Refletindo? Está morta, por isso, só vê escuridão e se refere ao carro como uma caixa? As pessoas envolta, chacoalhando, seriam os que levam seu caixão para o túmulo? Ainda que se trate de uma ficção, como seu cérebro poderia estar tão ativo? Será que tudo isso não passa de mais uma metáfora, apenas uma morte simbólica dessa mulher que não quer mais viver sem propósitos? Não sei. Realmente, não sei dizer.

O importante é que o livro nos faz pensar em nossa própria realidade, no tipo de vida que estamos levando, em quais sãos os valores, crenças e objetivos que regem os nossos dias. Quantos de nós não estão perdidos em meio ao acúmulo de funções, seguindo em frente no piloto automático, sem entender muito bem o porquê somos quem somos e fazemos o que fazemos? Talvez também precisemos despertar.

 

Autor: Haruki Murakami

Editora: Objetiva (Selo Alfaguara)

Páginas: 120

Edição: 2015

Idioma: Português

Acabamento: Capa dura

I.S.B.N.: 978857962372

Stars: 3

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