Sobre o nosso tempo

livro_luftUm devaneio sobre as fases da vida e as transformações do tempo. Um casamento instigante entre prosa e poesia. Um breve retrato de nós mesmos nas palavras de outra pessoa. Sim, fiquei encantada com a capacidade da autora em me tirar da zona de conforto (estética) com um jeito tão singelo e prazeroso.

Lya Fett Luft (1938-) é uma professora aposentada, tradutora e escritora gaúcha, de descendência alemã. Graduada em Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas, ocupou o cargo de professora titular na FAPA, por 12 anos. Tem mestrado em Linguística (PUC-RS) e em Literatura Brasileira (UFRGS). Também já traduziu mais de 100 livros, dentre os quais se destacam as obras de Virginia Woolf e Thomas Mann. Conquistou os prêmios União Latina (2001) pela melhor tradução técnica e científica, bem como o Prêmio ABL (2013) pela obra O tigre na sombra. No total, publicou 23 livros, entre romances, coletâneas de poemas, crônicas, ensaios e livros infantis. É bastante conhecida por sua coluna mensal na revista Veja [aliás, eu mesma só a conhecia dessa forma].

Notamos a peculiaridade do livro desde a contracapa, que não tem uma sinopse comum, mas uma citação marcante da própria obra. Quando avançamos pelas páginas, percebemos que há sempre um breve poema iniciando o capítulo (que dá o tom da leitura), seguido de pequenos trechos de texto, separados uns dos outros, mas conectados por uma linha de pensamento. A sensação é de que estamos lendo o diário de alguém ou anotações de épocas e situações diversas. Na medida em que nos deparamos com cada frase, que reflete tanto os clichês da sociedade, as nossas experiências e medos, nos envolvemos ainda mais.

Porque o tempo passa é que tudo se torna tão precioso. Porque estamos sempre nos despedindo – dessa luz, dessa paisagem, dessa rua, desse rosto, desse momento, e de nós mesmos nesse momento -, tudo assume uma extraordinária importância (LUFT, 2014, p. 87).

O tempo é o fio condutor entre os primeiros anos de vida, as primeiras dúvidas, os momentos turbulentos, as responsabilidades e as discussões sobre a morte. O rio é o cenário onde desaguam todas as fases da vida. Para dividir essas ideias, a autora separa o livro em três grandes seções: Águas mansas (infância, descobertas, inocência, visão de mundo sendo despertada e modificada a cada experiência, tudo fica vivo na memória – ideia que ela reitera bastante), Maré Alta (primeiro ficamos em trânsito – não somos nada – época de questionamentos e certa arrogância, gostamos de ser envolvidos pelas tribos, primeiras decisões importantes – fase adulta, sem tempo pra viver, cercados de convenções, pressões sociais, tempo de refinamento) e A embocadura do rio (quase completamente focado na morte e como será depois – sem puxar para uma perspectiva religiosa).

Eu nunca havia lido um ensaio. É provável que isso explique o estranhamento da leitura. Confesso, gosto de algo mais imersivo, com o qual possa me envolver consideravelmente. Portanto, não posso dizer que seja uma obra UAU! Ainda assim… Embora eu prefira os romances, não posso negar que Lya escreve muito bem, de modo que nos prende o livro todo. Além disso, há algo muito especial nessas páginas, nessa mistura de lembranças e constatações, nesse conjunto de devaneios sobre a vida e o tempo.

Autora: Lya Luft

Editora: Record

Páginas: 144

Edição: 2015

Idioma: Português

Acabamento: Brochura

I.S.B.N.: 9788501102010

Stars: 4

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