Todos os lados de Alyssa

livro_lado_mais_sombrioEu nem fazia ideia da existência dessa obra até uma aluna me emprestar e recomendar a leitura com muito entusiasmo. Óbvio que a minha parcela de manteiga derretida foi nas alturas né?! Quando dividimos nossas paixões na sala de aula, não há nada mais incrível do que receber esse carinho de volta. Enfim… Fui positivamente surpreendida por essa apropriação/releitura/continuação/ tributo [não consigo encontrar a palavra certa] do tão conhecido Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1832-1898). Dizem que é uma versão dark/gótica do livro clássico… Pode até ser. Mas, para mim, o ponto é que se trata de um toque de realidade e modernidade tão instigante e envolvente quanto os jovens leitores de hoje.

Confesso que essa história lança mão de elementos pra lá de fantásticos, como seres intraterrenos e as maluquices do mundo através da toca do coelho. Tanto que me senti perdida em certos momentos da leitura, por não dar conta de imaginar todos os detalhes descritos – seja dos locais, dos objetos ou dos personagens. Talvez tenha faltado embarcar mais nessa viagem. Sendo assim, concordo que “País das Maravilhas e comum… [são] Duas palavras que nunca deveriam estar na mesma sentença” (p. 287).

Aliás, a autora norte-americana merece todo o reconhecimento por tamanha criatividade. Penso que não está entre as tarefas mais fáceis expandir um universo ficcional tão clássico e famoso quanto o criado por Carroll. No entanto, para mim, ela fez isso com maestria. Foi além do aclamado conto inglês, ultrapassou ainda mais os limites da lógica e ressignificou os contrastes que cada ser humano esconde dentro si mesmo. O curioso é que Anita Grace Howard não abre muito espaço para os detalhes de sua formação e vida pessoal [nem a idade, para terem uma ideia]. Não consegui encontrar nada além do que ela mesma divulgou em seu site e que todos acabam reproduzindo. Ainda assim, os agradecimentos de uma obra sempre revelam um pouco de seu autor e A. G. demonstra não apenas o carinho pela família, amigos e equipe, mas a devoção a Deus.

Contextualizando… O livro em questão foi publicado em 2013, nos Estados Unidos, e no ano seguinte por aqui. Ele faz parte de uma série literária, que já rendeu cinco títulos. Embora muita gente pense que é “somente” uma trilogia, não é bem o caso. Há também os livros 1.5 (uma novela, apenas em e-book) e 3.5 (disponível nos dois formatos, mas ainda não lançado no Brasil). Não conheço outras séries assim e nunca tinha ouvido falar desse tipo de recurso (livros “intermediários”). Achei bem interessante! Inclusive, o 1.5 traz novas perspectivas para a trama de O lado mais sombrio. Fiquei curiosa para ler.

Falando nisso… Só eu não gostei da tradução dos títulos ou vocês me compreendem? Até livro_lado_mais_sombrio_2imagino que a intenção da editora deve estar respaldada em motivos pertinentes, mas convenhamos… Para mim, os originais são muito mais instigantes e singulares: 1 Splintered (O lado mais sombrio x Estilhaçada/0), 1.5 The moth in the mirror (A mariposa no espelho), 2 Unhinged (Atrás do Espelho x Desequilibrado/a), 3 Ensnared (Qualquer outro lugar x Enlaçado/a), 3.5 Untamed (Indomada/o)*. Contudo, não posso deixar de defender um pouco a edição… Não sei se a versão norte-americana também tem esse capricho, mas o projeto gráfico das páginas internas é maravilhoso [veja a foto ao lado].

Agora chega de contexto e vamos partir para o enredo. Nossa personagem principal é Alyssa Gardner, uma garota de 16 ou 17 anos [não fica muito claro], que ouve as vozes de insetos e flores, como se fossem as de seres humanos. Para ficar ainda mais interessante, Alice Liddell [quem teria inspirado a história do País das Maravilhas] é sua tataravó e o pessoal da escola vive tirando sarro dela por conta disso [além de seu estilo, digamos, excêntrico]. Detalhe, desde Alice, as mulheres de sua família apresentam um histórico de alucinações e quadros clínicos bem complicados no âmbito da saúde mental. Alison, sua mãe, já está há onze anos em um hospital psiquiátrico. É devido a essa “maldição” que Alyssa descobre a realidade por trás de toda a ficção. No fim das contas, o verdadeiro País das Maravilhas pode ser bem mais sombrio do que Carroll teria nos contado.

Pensando nos adolescentes dos anos finais do Ensino Médio [principalmente nos Estados Unidos, onde eles têm bastante liberdade, autonomia e até dirigem os próprios carros], não é estranho que as questões sobre sexualidade tenham aparecido. O tema acaba sendo  explorado de duas formas distintas: 1) o amor sincero e quase inocente, baseado na amizade verdadeira, entre Alyssa e Jeb; 2) enfoque nos desejos tanto por Jeb quando por Morfeu [o que já me incomoda, porque traz um ar de naturalidade para esse tipo de coisa], bem como situações, conversas e atitudes um tanto sensuais demais [para o meu gosto, claro]. Podem me achar careta, mas penso que é importante ter em mente que um livro não atinge apenas o público-alvo, mas também leitores abaixo ou acima da faixa etária pretendida. Por isso, acredito que é desnecessário apimentar tanto os pensamentos e sentimentos dos personagens. Não gosto dessa sensualidade “velada”, com a qual crianças podem entrar em contato, de forma não intencional.

Voltando… Como somos guiados pela narração da “menina do skate” [apelido de Alyssa], só sabemos o que ela sabe ou nos deixa saber e ficamos cheios de pontos de interrogação, assim como ela. Além disso, todos no romance são misteriosos, inclusive Alison em relação ao quanto ela sabe acerca do outro mundo que a filha está prestes a conhecer. O tempo todo ficamos com a sensação de que a trama é mais complicada e sinistra do que acreditamos [e acaba sendo mesmo]. Marcas de nascença com poderes curativos, testes, jogos mentais, mistura entre sonhos e realidade, personagens bem mais “estranhos” do que conhecemos no clássico e emoções contraditórias.

Em se tratando de contradição, Morfeu (“a lagarta”) vence qualquer disputa. Ele é sutil e intenso, doce e cruel, misterioso e revelador, irônico e transparente. Essa personalidade tão marcante nos deixa confusos e curiosos ao mesmo tempo, devido às reviravoltas que ele causa. Num momento, quase gostamos dele. Noutro, só queremos que ele desapareça. Nunca temos 100% de certeza se esse intraterreno quer mesmo ajudar Alyssa ou se está apenas pensando nos próprios interesses; se está falando a verdade ou se é mais um de seus movimentos ardilosos. Ele brinca com a mente de quem estiver por perto, inclusive com a nossa.

Como podem ver, surpresa é o que não falta nesse livro. As descobertas de Alyssa nos capítulos finais são estarrecedoras [SÓ UM TIQUINHO DE SPOILER]. Mesmo nas minhas inferências mais malucas [ao estilo intraterreno], nunca imaginaria as intenções reais de Morfeu, a força do amor de Jeb e sua disposição em se sacrificar, os motivos de Alison estar no hospital, sem falar no quão complexa pode ser a vida no País das Maravilhas e seus habitantes.

O mais reconfortante é que, apesar da quantidade absurda de perguntas, informações pela metade, dúvidas e tudo o mais, cada peça se encaixa no final. Terminei com aquele gostinho de “quero mais”, morrendo de vontade de começar logo o próximo volume [ainda bem que minha aluna também emprestou o 2, ufa!]. Precisava saber se Alyssa conseguiria ter uma vida normal, deixando para trás as características de seu lado mais sombrio e as falcatruas de Morfeu. Essas questões ficam para “as cenas dos próximos capítulos”.

 *Nome do livro como foi lançado no Brasil x tradução livre do original.

Autora: A. G. Howard

Editora: Novo Conceito

Páginas: 367

Edição: 2014

Idioma: Português

Acabamento: Brochura

I.S.B.N: 978.85.8163.338.1

Stars: 4

 

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