Paris, mon amour

notre_dame_livroAhhh, Victor Hugo, a sua Paris deixou um aperto no meu coração. Quando será que eu vou me recuperar?!

Mesmo tendo me despedido de Quasímodo, Esmeralda, Djali, Pierre Gringoire e Phoebus há um tempinho, impossível não pensar neles de vez em quando. O corcunda de Notre Dame é uma história marcante, cheia de verdades e que deixa um desconforto quando chega ao fim. Não dá para saber se é tristeza, choque, decepção, estranhamento, confusão, surpresa… Só sei que ainda estou processando.

Victor-Marie Hugo (1802-1885) foi um escritor francês cheio de talentos. Novelas, poesias, dramas, ensaios… Ele escreveu de tudo. Sem falar na sua atuação política, como defensor dos direitos humanos em seu país. No Brasil, entre as obras mais conhecidas, estão Os miseráveis e O corcunda de Notre Dame (publicado, originalmente, como Notre Dame de Paris, 1482). Só para vocês terem uma ideia do “tipo”, ele quase foi premiado por um de seus poemas pela Academia Francesa de Letras, em 1817, isto é, aos 15 anos. Dizem que teria vencido o concurso, se não fosse tão jovem. Precoce ou não?

Esse romance, que teve a primeira publicação em 1831, traz uma forma de exploração ficcional de cair o queixo. Tanto é verdade que marcou o romantismo francês – ajudando a construir as bases da “idade heroica” romanesca, conforme Jorge Bastos. Há história, ciência, alquimia, arquitetura, verdades sociais, discussões dos ideais e do poder religioso no fim da Idade Média, amores impossíveis e tragédias. Se você é fã de histórias com happy ending, super água com açúcar… Este livro não é para você.

Para começar, a quantidade de palavras desconhecidas me assustou. Eu precisava parar a leitura o tempo inteiro e procurar o significado no dicionário. Mas gente, são mais de 600 páginas… Não ia dar né? Até que desisti, porque isso interrompia completamente o fluxo de pensamento, causando confusão na progressão da narrativa. Como eu poderia acompanhar as descrições minuciosas de detalhes dos espaços e dos acontecimentos, presa em definições? Fui circulando e deixando de lado… Não comprometia o entendimento, então, segui em frente. Fica para uma segunda leitura, ou não.

Segundo choque: Esmeralda é uma adolescente de dezesseis anos. Pensei que ela fosse uma mulher, afinal, é o motivo do desejo de tantos homens… É nisso que dá, meus amigos, ficar limitada aos desenhos da Disney. Aliás, falei sobre isso noutro texto e sugiro a leitura para vocês. Sou suspeita para dizer, mas acho que vale a pena. Voltando… Parei de ficar horrorizada quando me lembrei que, na época, era comum as adolescentes se casarem cedo. Isso perdurou bastante, tanto que a maioria das mulheres da minha família era até mais nova do que a referida “cigana” quando saíram de casa para viver com os maridos.

Falando em viajar no tempo… Vira e mexe, somos transportados para a Paris de 1482 e, ao mesmo tempo, Victor Hugo a compara com a “sua Paris” de 1831. É como se, de vez em quando, usássemos uma lupa na história: ora focalizando Notre Dame e sua arquitetura ora em cada um dos personagens. As perspectivas mudam com bastante frequência e, ao mesmo tempo em que isso é angustiante, não deixa de ser um toque de gênio. É como montar um quebra-cabeças bem lentamente, peça por peça. Enquanto isso, as inferências borbulham na mente.

Só preciso confessar que, apesar de ser um jogo narrativo interessantíssimo, houve situações em que essas partes sobre la belle Paris se estenderam muito e foi bem chato [ou talvez eu estivesse ansiosa demais pra saber o que aconteceria em seguida]. Do tipo: ok, vamos voltar para o resto do pessoal?

Há momentos de humor também, mas um humor ácido e sutil – por mais que esses dois adjetivos pareçam não combinar. É aquela “piada velada”, que te rouba um sorriso ou até uma risada, mas não tira o foco – por exemplo, o julgamento de Quasímodo (um surdo interrogando o outro, sem saberem da condição de cada um) – pior, um juiz que fingia ouvir as respostas do acusado.

Aliás, Quasímodo é um caso à parte. As frases que eu mais grifei foram as dele ou sobre ele. Pode até ser um “quase”, cheio de imperfeições [quem não é?] e até um tanto agressivo por ter passado quase a vida inteira escondido na catedral… Mas tem um belo coração. Nos ensina sobre amizade, fidelidade, altruísmo e beleza. Sim, isso mesmo. De que adianta um homem ser maravilhoso por fora, se só carrega escuridão por dentro? Já se passaram 185 anos, mas a nossa sociedade continua valorizando as aparências em detrimento do que é essencial. Precisamos dar ouvidos ao sineiro!

Terceiro choque: cheguei a simpatizar com Claude Frollo. Calma, calma! Tirando a parte em que ele se deixa consumir pelo pecado e só faz besteira [coisas horríveis e cruéis, na verdade]. Quando começamos a conhecê-lo, percebemos que ele é um homem apaixonado pelos livros e pela ciência, responsável, destaque nos estudos, que cuidou do irmão caçula e do corcunda com generosidade e amor. Então, quando você já está com o coração todo derretido de simpatia… Aparece o livro 7 e tudo desanda. Feitiçaria/alquimia, tortura, tentativa de estupro, atitudes desumanas, só ladeira abaixo. Comecei a sentir nojo e pena dele.

Minha única crítica a essa edição [que é maravilhosa… Com capa dura, projeto gráfico e tradução impecáveis] é a decepção com as cerca de 30 ilustrações da época. Pra começar, quem é esse ilustrador [ou seriam ilustradores]? Não encontrei a resposta em lugar algum. E não acho que elas condizem com as descrições do texto ou agregam na construção de sentidos. Totalmente dispensáveis [pra mim, é claro].

E como lidar com o final [sem spoiler]? Sabe aquele momento em que você coloca a mão no peito e só consegue suspirar? As palavras sumiram, você não entende direito o que sente, o que estava esperando que acontecesse… Toda a raiva, a sensação de injustiça, a tristeza… Tudo se mistura e só fica aquela dor de quando um livro muito forte e intenso termina.

No fim das contas, o romance retrata os costumes, as tradições e os pensamentos do povo parisiense do século XV [com um toque do XIX também] e faz isso com absoluta maestria. No entanto, arrisco dizer que muito do que está ali se aplica ao ser humano, de um modo geral. Não fala apenas do que é bonito, daquilo que todos adorariam expor e comentar, mas daquela parte enterrada, que gostariam que fosse esquecida. O livro tem a capacidade de despertar em nós um senso de realidade que costumamos deixar de lado, ressalta a dinâmica entre o grotesco e o belo que existe dentro de cada um de nós.

P.s.: Falei mais dos personagens no texto que indiquei. Não deixem de acessar!

Autor: Victor Hugo

Editora: Zahar

Páginas: 621

Edição: 2015

Coleção: Clássicos Zahar / edição bolso de luxo

Idioma: Português

Acabamento: Capa dura

I.S.B.N: 978.85.378.1358.4

Stars: 4

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s