Walt Disney, o que foi isso?

46a07c3d36a8984d26537d09df3203a4Assisti a essa animação quando era criança, mas não gostei [agora eu entendo o porquê]. Depois, ganhei um livro super divertido e lindo. Era de capa dura e tinha botões do lado, com os rostos dos personagens. Ao longo da história, esses mesmos rostos apareciam e, sempre que isso acontecia, o leitor “tinha que” apertar o botão correspondente. Saía um som característico de cada um… Só me lembro que o de Quasímodo era o badalar de um sino. Não sei onde esse exemplar foi parar, talvez tenha acabado em algum sebo ou na casa de alguma priminha mais nova. Who knows?

corcunda
Infelizmente, só consegui essa imagem ruim do livro.

Anos se passaram e li a obra de Victor Hugo (Edição bolso de luxo MA-RA-VI-LHO-SA da Zahar). Primeira impressão: o verdadeiro Corcunda de Notre Dame não se parecia em nada com as lembranças que eu havia guardado. Fiquei confusa e intrigada. Claude Frollo, por exemplo, era o mais detestado na infância, porém, até a metade do livro, eu simpatizei com ele e quase torci para que ficasse bem. Ao ler o final, mais um susto. O que era aquilo? Não tinha nada a ver com o happy ending da Disney. Ahhhh, eu precisava assistir o filme outra vez. E foi o que eu fiz.

Frollo é pintado [ou seria encenado?] como um monstro terrível, que foi obrigado a ficar com Quasímodo, tratando-o com toda a má vontade e desdém do mundo. Eles até inventaram uma cena em que a mãe do garotinho luta por ele, enquanto o “padre malvado” acaba com ela. Além disso, é colocado como um juiz [ministro ou sei lá o quê] eclesiástico impiedoso e mentiroso, cujo poder é usado contra tudo e todos que o contrariam. Aquela história de intelectual, apaixonado pelo conhecimento, que se perde somente após a paixão por Esmeralda, já era. Já o corcunda das telinhas não é um recluso, sem tato social e, muito menos, surdo. Ele conversa com as gárgulas da igreja [fato compreensível para trazer um elemento divertido, que chame atenção das kids] e tem uma maquete da praça, com as pessoas que conhece, entalhadas em madeira por ele mesmo – ou seja, não se dedica total e integralmente aos sinos, como no livro.

Pierre Gringoire, Jehan e a irmã Gudule nem dão as caras no longa. Phoebus é quase um príncipe de contos de fada, cheio de atitudes heroicas e gentis [digno da Disney]. Onde foi parar aquele bronco, insensível, mulherengo e beberrão, que só pensa em seu bel-prazer? Esmeralda não tem nada de ingênua e juvenil [lembrando que no livro ela tem apenas dezesseis anos], pelo contrário, é uma mulher decidida, provocante e destemida. Com toda a sua malandragem, até parece uma feiticeira mesmo. O amor entre esses dois, aliás, é super correspondido e romântico. Tanto que a Disney lançou até “O corcunda de Notre Dame II”, em que tudo gira em torno do filho do casal. Eu não assisti e nem pretendo.

Como podem ver, a produção usa alguns elementos do livro, adapta, distorce, muda e vira uma coisa bem estranha. Até entendo que é necessário mexer em vários pontos por se tratarem de linguagens diferentes (cinema e literatura). Não há o mesmo tempo para descrever cada personagem, dar um giro por Paris e ainda tratar de questões sociais de um jeito tão peculiar quanto o autor francês. Só não admito que tenham floreado tanto ao ponto de quase não se reconhecer a beleza da obra.

Podem me chamar de antiquada, conservadora ou qualquer outro adjetivo que encontrarem… Mas eu não acho que essa é uma história para crianças. A obra de Victor Hugo traz discussões muito profundas, densas e que exigem um olhar mais maduro. Sinceramente, não concordo que tudo pode ser adaptado (no sentido de adequar a linguagem ao público infantojuvenil), seja no cinema ou em edições para novos leitores. Há textos que precisam de mais tempo de vivência, que não podem sofrer tantos cortes em sua estrutura sem perder o brilho. Cada coisa em seu momento.

Se querem saber, sou da opinião que nem mesmo o filme é recomendado para crianças. Eu não gostaria que meus filhos, primos, sobrinhos e alunos assistissem. É forte, sombrio, quase dá medo. Sem contar que não há muitos valores e atitudes sendo discutidos de maneira positiva. Claro, tudo isso é a minha reles opinião… Mas fiquei chocada. Ainda estou tentando entender o que passou pela cabeça desse povo para criar algo tão… Perturbador. A questão aqui não é se a versão cinematográfica é ou não fiel ao livro, para mim, é, simplesmente, uma catástrofe por si só.

O Corcunda de Notre Dame (1)

Título original: The Hunchback of Notre Dame

Gênero: Comédia Dramática/Musical

Lançamento: 1996 (Brasil)

Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise

Produção: Don Hahn

Produtora: Walt Disney Pictures

Adaptação de: Notre Dame de Paris ou O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo, 1831)

Sequência: O Corcunda de Notre Dame II

Stars: 1 [só pra não ficar chato]

 

 

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s