O estranho do número 6 (full story)

caminhandoFinalmente encontrei um lugar para escrever. É engraçado como cada escritor tem sua mania. A minha é o silêncio… Quanto mais melhor. Já estava ficando louco naquela casa empoeirada, em que os ratos me faziam companhia. Até o barulho deles me incomodava. E os bares durante a noite? Os boêmios já não se importam mais com os rótulos de bairros residenciais. É festa a noite inteira, é som alto, é o pneu que canta, é o filhinho de papai, sem noção, que passa com a Harley nova. Eu precisava sair dali para terminar meu romance policial. O prazo está chegando ao fim, mas acho que a ideia parecia mais interessante na minha cabeça. Não consigo passar do primeiro capítulo e ele tem apenas cinco páginas sem graça.

Estou caminhando, tentando ouvir meus pensamentos, quando vejo uma placa de “aluga-se”. Apesar de estar infeliz naquela casa de seis cômodos, não tinha saído com o objetivo de procurar um novo canto para mim. Já vivi meus 44 anos e aprendi a me adaptar às situações complicadas. Entretanto, não tinha nada para fazer mesmo, então, fui andando até a imobiliária para ver se a chave estava ali. Oito quadras depois, parecia estar dentro do inferno na Terra. Era tanta gente ensandecida, gritando por chaves, contratos e documentos. Quase dei meia volta. Mas uma bela mulher, na casa dos 30, veio me atender. O sotaque dela era engraçado, talvez fosse gaúcha. Perguntei sobre o apartamento e, por sorte, ela voltou com a chave nas mãos. Sem me dar muita atenção, apenas disse o horário máximo para a devolução.

Não estava com pressa. Tinha a tarde inteira para viver essa pequena aventura. Me senti com 18 anos outra vez, procurando meu primeiro apartamento. A euforia, a ansiedade, a expectativa tomando conta da minha mente. Chega a ser engraçado admitir. Eu sabia, mas ao mesmo tempo não sabia o que esperar. A caminhada pareceu mais longa, mais cansativa. Minhas pernas doíam de tão rápido que eu caminhava, queria chegar logo. Olhei para aquele prédio modesto, amarelado, com a calçada pintada de uma cor que mal consigo descrever. Tinha um molho de chaves nas mãos e demorei uns cinco minutos para encontrar a certa. Falta de sorte ou pura ansiedade? Um pouco dos dois.

Consegui abrir a porta e me deparei com uns dois ou três lances de escada. Naquela altura, pareciam os 365 degraus da Igreja Nossa Senhora da Penha. Eu só queria chegar logo e ver o tal apartamento. Era o número 6. Impressionante como essa combinação me persegue, já não era um bom sinal. Em uma primeira olhada, parecia ter apenas três vizinhos, mas ninguém estava em casa. Pelo menos, as evidências indicavam que o ambiente era tranquilo.

O lugar já estava mobiliado. Um sofá pequeno, de tecido laranja; uma estante velha, de madeira escura; uma mesinha jogada num canto, acompanhada de uma banqueta preta; uma cama de solteiro, que rangia só de olhar para ela; um guarda-roupas com as portas quase caindo; e o melhor de tudo: cozinha com geladeira e fogão. É verdade que tudo estava descascado, antigo, empoeirado, com cara de ter sido usado por umas 20 famílias. Mas era o bastante pra mim.

Puxei a banqueta, limpei o pó com a mão e me sentei. Fiquei olhando aquele espaço pequeno. Do ponto onde estava, conseguia ver todo o apartamento. Tentei entender o que estava sentindo, era um misto de emoções, que eu não dava conta de decifrar. Os últimos meses foram tão dolorosos, nem acredito que cheguei aqui. Aquele filme, que eu já estou cansado de reprisar na minha mente, me invadiu outra vez. Mas, diferente do que tenho feito quando isso acontece, assisti até o fim. Até este homem, de meia idade, aparecer sentado em uma banqueta empoeirada, se sentindo perdido.

Ainda fico trombando nas caixas quando passo. Não dei conta de desempacotar boa parte do que tenho. Só de pensar no trabalho que daria para organizar meus livros, passar todas as roupas amassadas, limpar cada centímetro do apartamento… Não tenho forças. Talvez o espaço empoeirado e cheio de caixas empilhadas me inspire e eu consiga voltar a escrever o romance.

Estou tão deslocado aqui. Ainda não posso dizer que sento neste sofá laranja e me sinto em casa. Falta personalidade, faltam memórias. Mas não acho que vou construí-las aqui. Parece ser um lugar de passagem, um lugar ao qual não pertenço. Talvez não devesse ter saído do casarão de seis cômodos. Apesar do sofrimento que me causava, fazia eu me sentir confortável.

Detesto mudanças. Aliás, quem é que gosta delas? Isso nos tira da zona de conforto, vira nosso mundo de cabeça para baixo. É como jogar fora tudo que nos faz ser quem somos. Eu não queria que elas tivessem ido embora. Não queria estar sozinho. Eu só precisava voltar e congelar naquele tempo em que eu pensava ter controle das nossas vidas.

Ouço alguns barulhos. Abro a porta e não tem ninguém no prédio. Volto a me sentar no sofá e ele range. Fico intrigado e decido dar uma olhada. Me agacho e percebo que as almofadas estão soltas. Não sou um homem que costuma reparar nesses detalhes, então, é natural que não soubesse a forma exata do móvel. A estrutura aparenta ser normal, até que vejo algo estranho.

Uma parte da espuma está revirada, poderia ter sido mexida por alguém, que não teve tempo de arrumar o serviço. Minhas mãos tocam um pequeno objeto. É gelado, meio áspero e me dá uma sensação estranha. Não reconheço de imediato, meu cérebro trabalha melhor com a visão do que com o tato. Mas fica claro que é uma chave, quando consigo puxá-la. Por que alguém esconderia isso aqui?

Aquela chave me deixou confuso. Era antiga, ornamentada, parecia especial. E apesar de ter certeza de nunca tê-la visto, me passava uma sensação familiar. Eu sei que é loucura, mas resolvi procurar o encaixe no apartamento. Como a chave estava ali, escondida no sofá, talvez eu também encontrasse a fechadura.

Testei na porta, no cadeado das janelas, olhei o guarda-roupas, embaixo da cama, nos armários da cozinha… Já estava desistindo, quando notei uma pequena caixa de madeira na última prateleira da estante. Era tão antiga quanto a chave. Estava um pouco lascada, devia ter passado dos 40, assim como eu.

Fiquei com receio de tentar abrir. Aquele medo bobo de me frustrar, de não ser a chave certa e continuar curioso. Acho que perdi umas boas horas tentando decidir o que fazer. A dúvida estava me corroendo, não queria me decepcionar. Ouvi de novo aqueles barulhos do outro dia. Mais uma vez, ninguém no prédio. Onde foram parar os vizinhos? Parece que só eu moro aqui.

Minhas mãos suavam, uma em cada objeto. A marca da chave já tinha tomado forma na minha pele morena e a caixa começava a me machucar. Eu as segurava com tanta força. Não podia mais esperar, a curiosidade era maior que o medo. Quando encaixou, eu não podia acreditar. Por que alguém esconderia uma chave dentro da espuma de um sofá, mas deixaria a caixa tão exposta? Nunca saberei. Restava ver o que tinha dentro.

Muitas cartas e fotos antigas, amareladas, um tanto sujas. Todas tinham algo em comum: uma letra feminina, arredondada e delicada dava vida à frase “para A.D.”. Fiquei em choque, aquilo não podia estar acontecendo comigo. Não agora. Não posso aguentar.

A.D. Não podia ser uma simples coincidência. Eram as minhas iniciais. Era a letra dela, a assinatura dela, os papeis de carta que ela tinha na cabeceira da cama. Quem está fazendo essa brincadeira comigo? Quem pode ser tão cruel? De onde veio essa caixa? Meu Deus… É tanta dor, que não posso suportar. Tenho procurado me manter de pé, mas assim eu não dou conta. Não sei se abro o envelope e termino de desmoronar ou se fujo daqui. Só pode ser um pesadelo… Não é real! Acabei caindo no sono de tanto chorar.

Ouço os passos de Laura, mas não abro os olhos. Adoro quando ela passa as mãos macias pelo meu braço e sussurra em meu ouvido para eu acordar. Não estragaria esse momento por nada. Ela me dá um beijo de “bom dia” e me apressa porque não quer tomar o café da manhã sozinha. Beatriz nem chega a ser um projeto… Somos apenas nós dois. Não quero chateá-la, então, jogo uma água no rosto, escovo os dentes e corro para vê-la.

Chego na porta da cozinha e fico parado. Tão linda! O cabelo castanho claro, todo bagunçado, preso por uma caneta roxa. Usava a camisola cinza, com renda laranja, que eu sempre achei muito divertida. Ela me olha como quem diz, “o que foi? tem algo errado?”. Imagina… O que poderia ter de errado na mulher da minha vida? Dou-lhe um abraço bem forte e digo o quanto sou maluco por ela. Gosto de dizer sempre porque ela merece saber que é amada demais. Comprei nosso primeiro carro um mês depois.

Agora estamos no hospital. Seguro as mãos dela e tento dar todo o apoio possível. Me sinto péssimo por vê-la sofrer tanto. Ela chora, se contorce, grita, pede por uma anestesia, algum remédio que faça a dor passar. Ela implora que alguém a atenda, que façam logo o parto. Mas Beatriz quer esperar. Não é a hora ainda. Se eu pudesse, não permitiria que ela passasse por isso, mas Laura é teimosa. Insistiu que queria dar a luz de maneira natural. Não saí de perto dela e quando ouvimos o primeiro choro… Não consigo explicar a sensação. Era medo, orgulho, insegurança, felicidade.

Acordo suando frio, ainda com a caixa de cartas nas mãos. Foi bom pensar nelas de novo, mas as memórias me rasgaram por dentro. Acho que vou precisar de um remédio para voltar a dormir, não aguento conviver com a realidade. Quero sentir de novo a pele macia da minha Laura. Quero ouvir o choro da minha filha. Quero elas de volta na minha vida. Preciso delas.

Sinto raiva por estar aqui sozinho. Faz tempo que tenho deixado a dor de lado, como se fosse parar de me machucar em algum momento. Sabe quando a gente finge que não está acontecendo? Peguei esse romance policial para fazer, vendi a nossa casa, me mudei para esse lugar onde nunca vejo os vizinhos, me isolei. É como se minha vida tivesse acabado, mas alguém tivesse se esquecido de me buscar aqui. Os dias parecem uma eternidade e eu durmo porque não consigo fazer outra coisa.

As vezes, acho que enlouqueci. O que eu estava pensando quando me mudei para esse apartamento? Não tem nada nem ninguém nesse lugar. Eu fico ouvindo barulhos estranhos, mas não sei de onde eles vêm. Acordo sempre assustado e, de relance, vejo um vulto no quarto. Mas quando tento enxergar melhor ou acendo a luz, ele some. Não seria Laura. Ela detestava histórias assim. Teria mais a ver com ela aparecer em um sonho agradável. Além disso, o vulto parece ser de um homem.

Me olho no espelho e vejo uma barba enorme para os meus padrões. Beatriz detestava quando deixava a barba crescer, dizia que pinicava. Então, eu tirava todos os dias, pela manhã. Mesmo me machucando, queria agradar minha filha. Não suportaria que ela deixasse de se aproximar por causa disso. Encontro forças e faço a barba. Parece que tirei um peso de mim. Decido me trocar e comprar pão. Lembro de ter visto uma padaria aqui perto… Mas estou trancado. A chave não está na porta e eu não sei o que fazer. Grito pela janela, mas ninguém me ouve.

Eu não tenho ânimo para tentar sair. Não quero procurar a chave, não quero mais gritar pela janela. Na verdade, estou cansado de não ter forças, de ficar me arrastando por esse apartamento. Estou cansado de carregar toda essa dor. Eu preciso superar a perda, preciso me superar. Tenho que olhar adiante e viver de forma digna. É o que Laura teria feito no meu lugar. É como eu gostaria que minha filha me visse. Chega de ser um peso na minha própria vida.

Ligo o computador e passo uns cinco minutos olhando a tela em branco. Eu sei que escrevi alguns capítulos antes, mas joguei tudo fora. Não fazia o menor sentido. A história não tinha alma. Então, começo a pensar no que tenho vivido nesses últimos meses, principalmente nos barulhos que ouço, no vulto que sempre me aparece. Fui tomado por um impulso… Eu precisava escrever, ainda que a ideia não estivesse pronta na minha mente.

As palavras começaram a sair em uma velocidade assustadora. Acho que nunca tinha me envolvido num processo de criação tão intenso. Não chego a ter acesso ao pensamento, sou apenas uma ferramenta, que vai digitando tudo, sem decodificar. Simplesmente não posso parar. Depois de algumas horas, minhas mãos começam a doer. Sinto fome, frio, calor, medo. Sinto medo do que está acontecendo. Mas continuo.

Não sei quanto tempo eu fiquei ali. Talvez tenham se passado um ou dois dias, entre os meus surtos de produção e as crises de silêncio. Em alguns momentos, as palavras me deixavam. Sumiam da minha cabeça. E, de repente, reapareciam. Quando estavam ali, sugavam todas as minhas forças, toda a minha criatividade. Tudo era colocado nas páginas, sem que eu entendesse como. Sei que eram as minhas ideias, só não compreendo como chegavam às minhas mãos.

Quando escrevi a última frase e coloquei o último ponto final naquela história, meu coração parecia aliviado. O livro estava pronto, eu tinha conseguido. Não sei de onde veio a motivação, mas ela me encontrou. Salvei o arquivo sem ler e enviei para minha editora. Olho a data no canto direito do meu computador e é o prazo final para a entrega do romance. A vida é muito engraçada…

tumblr_m3u7qgenfg1rnav7ro1_500

Encontro a chave do apartamento embaixo daquela caixa de cartas. Não sei como foi parar ali, mas resolvo que pode ter sido um sinal… Um sinal de que eu deveria abrir os envelopes e entender o que estava acontecendo. Ela parecia saber algo sobre aquele dia chuvoso de dezembro. Escreveu durante meses, como se estivesse se despedindo. Também tinha alguns desenhos de nossa filha, fotos da família e bilhetes apressados. Como eu podia não ter notado aquilo? Me agarrei a cada letra, cada traço, cada sorriso. Passei horas examinando a caixa.

Acordei assustado e com dor nas costas. Devo ter pegado no sono ali mesmo, no chão empoeirado e tive um pesadelo. Aquele vulto que sempre vejo, aproximava-se de mim com as mãos estendidas e, antes mesmo que me tocasse, eu me sentia sufocar. Acendi a luz e lá estava ele… um escritor de meia idade, com os olhos vermelhos de tanto chorar, as olheiras cada vez mais escuras, os ossos aparentes pela falta de cuidado. Era ele, era eu.

Pela primeira vez em seis meses, estava me dando conta da minha situação. Elas foram embora, mas eu ainda estou aqui. Ainda tenho muito o que fazer. Preciso limpar o apartamento, organizar as minhas coisas, comprar mantimentos, voltar a andar pela cidade, quem sabe até me matricular em um curso de violão… Eu tenho que aceitar a perda e seguir adiante. É o que Laura faria se tivesse sido eu e não ela.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s