Trabalho noturno pode prejudicar o metabolismo

iStock_000003570926SmallTrabalhar durante a noite é a realidade de muitos. O principal chamariz para esse tipo de serviço é a remuneração maior, em função do adicional noturno. O problema é que essa prática pode provocar danos à saúde. O especialista em Medicina do Sono, Paulo Nabarro, explica que o trabalho noturno gera desequilíbrio hormonal e facilita até mesmo o ganho de peso.

Uma pesquisa, realizada por especialistas do Sleep Research Centre, da Universidade de Surrey (Inglaterra), mostra que os turnos de trabalho a noite podem alterar o metabolismo e prejudicar o bom funcionamento molecular. De acordo com o estudo, isso pode provocar um caos no corpo humano, em longo prazo.

O texto explica que, como o nosso relógio biológico é programado para funcionar durante o dia, as mudanças podem causar sérios efeitos colaterais, como alterações dos hormônios, do humor, da atividade cerebral, da temperatura corporal e do desempenho físico, principalmente em atletas, além da aceleração dos batimentos cardíacos e alterações no funcionamento dos rins.

Os pesquisadores acompanharam 22 pessoas que trabalhavam durante o dia e que foram transferidas para a noite. Os exames de sangue mostraram que, em média, 6% dos nossos genes são programados para ficar mais ou menos ativos, atuando em sintonia em momentos específicos do dia. Uma vez que os voluntários passaram a trabalhar à noite, essa sintonia genética “se perdeu”.

Estudos anteriores já haviam indicado que dormir em horas erradas do dia aumenta os riscos de diabetes tipo 2 e obesidade. Outras análises sugeriram que as pessoas que trabalham à noite têm mais chances de sofrer de ataques do coração. Conforme o especialista em Medicina do Sono, Paulo Nabarro, o organismo foi feito para dormir a noite por causa da temperatura do corpo e do ambiente, que são mais baixas.

Além disso, alguns hormônios (como leptina e grelina), responsáveis pelos estados de saciedade e fome das pessoas, são liberados em maior quantidade no período noturno. “Quem trabalha a noite  ganha peso com facilidade por causa dessa falta de equilíbrio hormonal”. Nabarro ainda pontua que os trabalhadores desse setor acabam se alimentando mais de comidas rápidas e, geralmente, mais calóricas. “Dificilmente alguém liga para um restaurante de madrugada para pedir uma salada”.

O presidente do Sindicato dos Vigilantes de Maringá e Região, José Maria da Silva, afirma que são 1,8 mil trabalhadores cadastrados e 30% deles trabalham a noite. Segundo ele, a jornada é de 12h e os vigilantes folgam 36h, o equivalente a um total de 15 noites trabalhadas no final do mês. “É um trabalho desgastante e todos acabam sentindo o cansaço. Uns menos e outros mais, depende do organismo”.

Existem várias estratégias para combater a dificuldade de se manter acordado, mas todas são pouco eficazes e geram algum tipo de desgaste depois. Nabarro afirma que o período de maior cansado é entre 3h e 4h da madrugada. “Há casos de trabalhadores que misturam café com Coca-cola para combater a sonolência no turno da noite e utilizam bebidas alcoólicas para facilitar o sono diurno”.

Para evitar maiores danos, Silva explica que os candidatos fazem um curso psicológico, além do tratamento necessário para a função. Ele também ressalta que algumas empresas oferecem o acompanhamento médico. Depois de tantos anos na profissão, o presidente afirma que é importante aproveitar ao máximo o período da manhã para dormir, principalmente se conseguir deitar antes do amanhecer. “É preciso procurar um lugar com menos luz, bastante arejado e pedir a cooperação da família para que se tenha um sono de 8h”.

O salário base de um vigilante em Maringá é de R$ 1,3 mil. No entanto, também recebem 20% a mais pelo adicional noturno, R$ 334,40 pelo risco de periculosidade e também R$ 400 de vale alimentação. “Esses adicionais chamam bastante a atenção dos candidatos, mas nada pode superar a saúde. Uma pessoa que trabalha no período noturno precisa se cuidar muito mais”, ressalta Silva.

Para o especialista, a ausência de luz, a queda de temperatura do corpo e a liberação da melatonina (um neuro-hormônio responsável por regular o sono) são fatores que ocorrem no período noturno e contribuem para o descanso. “Pesquisas demonstram que, durante o dia, as pessoas dormem menos e com menor qualidade, já que o sono costuma ser mais fragmentado”.

Kevin Pereira Macario, 19, trabalha em um supermercado de Maringá e diz que a rotina tem sido complicada. O jovem começou o serviço há três meses, mas ainda não conseguiu se adaptar. “Sinto que estou indo contra o meu instinto natural. Me sinto muito cansado durante o dia, mesmo dormindo o máximo possível de manhã e a tarde”. De acordo com ele, o salário maior ajuda, mas assim que conseguir um emprego diurno, vai trocar.

DICAS PARA QUEM TRABALHA A NOITE

O especialista em Medicina do Sono, Paulo Nabarro, deu algumas dicas para que trabalhadores noturnos consigam se adaptar melhor a nova rotina e sofram menos com problemas de saúde.

1. Durma sempre nos mesmos horários, mesmo nos dias de folga, para não afetar ainda mais o relógio biológico.
2. Mesmo durante o dia, durma sem interrupções uma quantidade de horas mínima para o seu bem-estar — de seis a oito horas.
3. Deixar o quarto escuro ajuda a dormir melhor. Feche janelas e cortinas, mas mantenha o ambiente arejado, porque o calor também atrapalha o sono.
4. Use protetores de ouvidos, por conta do barulho feito durante o dia.
5. Para que os trabalhadores noturnos não sintam sono à noite, basta tirar um cochilo algumas horas antes de ir trabalhar.
6. Se puder, cochile no meio da madrugada, mesmo que por poucos minutos.
7. Avise sua família que ela precisa colaborar para a manutenção de um ambiente tranquilo para você dormir bem.
8. Apesar de ser difícil, quem fica acordado à noite não deve se descuidar da alimentação, para não atrapalhar ainda mais o sono durante o dia. É importante consumir vegetais ricos em fibras, muitas frutas e pouca gordura. Também é preciso fazer as três principais refeições (café da manhã, almoço e jantar) em horários adaptados. Lembrando que, antes de dormir, deve-se ingerir uma refeição leve.
9. Evite tomar refrigerantes com cafeína, café, chá preto ou mate, tanto durante o trabalho noturno quanto antes de dormir.
10. Praticar exercícios físicos regulares, evitar o fumo e o álcool e manter o peso também são medidas importantes.

*Esta matéria foi publicada no jornal Hoje Notícias de Maringá, em fevereiro de 2014. Faz parte dos meu trabalho jornalístico, que tenho compartilhado com vocês.

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