Na cadeira do dentista

na cadeira do dentistaA sala de espera incomoda. Aquela parede incrivelmente branca e os móveis verde chiclete parecem contribuir para isso. Você sabe o que vem por aí. Ouve os barulhos da sala ao lado. Fica tenso, inquieto, quer sair. “Será que ainda dá tempo de ir embora?”, pensa.

E eles demoram para atender. A secretária vem até você, sorri e sugere que você dê uma olhada na pilha de revistas ao seu lado. A fim de matar o tempo, acaba arriscando. Publicações antiguíssimas, da época em que Tieta ainda era a novela principal. Mas você folheia e procura conter a tensão.

Poucas páginas depois, quase esquece que está ali. De repente, a secretária sorridente aparece na porta e diz a tão temida frase:  “é a sua vez”. Faz um movimento com as mãos indicando o caminho. Seu corpo estremece.

Caminha pelo corredor como se fosse rumo ao abate. Entra na sala com paredes ainda mais brancas que as anteriores e se depara com outra mulher, ainda mais sorridente. Por trás da máscara, ela expressa toda a satisfação em te ver e te convida a sentar.

Está ali a cadeira tão intimidadora. Você senta, mas a vontade é dar meia volta em direção as revistas empilhadas. As duas mulheres continuam a sorrir, você consegue perceber mesmo cobertas pelas máscaras. Colocam as luvas, um sinal de que a tortura está preste a começar.

Aqueles olhos de lince te observam. Estão prontos para encontrar uma imperfeição, uma sujeira, uma cárie, qualquer coisa que necessite de um daqueles aparelhos barulhentos e dolorosos. A visão é bastante intimista.

Ela parte para as perguntas básicas, “tem usado fio dental?”, “quantas vezes por dia escova os dentes?”… Não se contenta com as respostas, quer achar uma falha, algo que precise tratar, que você sinta alguma dorzinha pelo menos.

Bingo! Os dentes do ciso. Você vai precisar tirá-los. Os quatro. Não tem escapatória. A dentista mexe daqui, mexe de lá, analisa a panorâmica. Enquanto você implora para aquilo não ser verdade.

Acabou. A secretária marca um novo horário, mas você não quer ir. Abre a porta, desce os três degraus da escada e fica alguns segundos olhando para trás, vendo o consultório verde chiclete. O que a gente não faz por um belo sorriso?

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