Os indesejáveis

os indesejáveis

Ela chega na redação. Ainda acha aquilo muito excitante. Lembra de quando estava no colégio e visitou uma daquelas. Recorda a cena como se ainda estivesse ali, parada, com os olhos brilhando de encantamento. Viu as olheiras, as xícaras de café ao lado do teclado, o corre corre e sentiu a tensão no ar. Mesmo depois do desencorajar do editor, ela persistiu e disse:

Você pode tentar me fazer desistir, mas eu serei jornalista!

Não sabia direito onde se sentar, mas logo foi direcionada a tomar seu lugar em uma das cadeiras azuis. Ligou o computador e pensou que ficaria petrificada de tanta emoção. Seu primeiro dead line tinha sido cumprido. É claro, com uma semana de prazo, quem não teria? Ainda consegue sentir o gosto da insegurança. Mas o prazo de hoje? Agora.

Levou um tropeço na primeira ligação. Ficou nervosa, chamou uma autoridade pelo primeiro nome e lá se foi a entrevista. Não conseguiu se concentrar, perdeu a linha de raciocínio e logo desligou o telefone. O editor insistiu para ligar outra vez. Sorte que o bendito não quis mais atendê-la. Onde ela esconderia a vergonha?

Aprendeu, nos dias que se seguiram, que a vergonha tem que ser deixada em casa. Não tem lugar para esse tipo de coisa na redação! Ali, o negócio é ter coragem para ouvir, entender, perguntar, escrever e terminar. No fim da tarde, o editor vai precisar das matérias prontas, sem desculpa esfarrapada. Além disso, não adianta falar para dentro, baixinho, gaguejar… Repórter tem voz firme e não dá mole para ninguém.

Talvez esse seja um dos motivos da fama de chatos, atrevidos, intrometidos e a lista segue grande. A jovem até concorda com muitos desses adjetivos, porém, o que mais machuca é a desconfiança. Não foram uma nem duas vezes que as fontes pediram que enviasse a reportagem por email antes de ser publicada – ela nunca enviou. Oras, onde já se viu? Sem contar os episódios em que perguntaram se o veículo era confiável.

Quantas vezes ficou perplexa com o telefone mudo depois de se identificar. Outras tantas, ouviu do outro lado, com ar de desdém:

– É a moça do jornal… Eu sei que você não quer falar, mas atende, ela está esperando!

– Olha, eu não gosto de falar com a imprensa. Já passei por situações muito desconfortáveis porque vocês escrevem o que querem, distorcem tudo o que a gente diz.

– Tem certeza que entendeu direito?

– Escreva exatamente isso, viu?

Em alguns momentos, sentiu que estavam duvidando de sua capacidade. Como se a inexperiência estivesse denunciada em sua voz. Mas depois, percebeu que a culpa não é dela nem dessas pessoas. Agora, não se chateia tanto quando é atendida de forma atravessada, recebe um não sem rodeios ou quando falam de má vontade. É provável que a culpa disso seja do tempo, de outros profissionais e até mesmo do boca a boca, que faz a má fama chegar aos ouvidos de todos.

Ser repórter não é fácil. Desde o primeiro dia de aula na faculdade, ouve uma professora dizer que jornalismo é coisa de gente apaixonada, idealista e que sonha em mudar o mundo, mas que se depara todos os dias com uma dura realidade. Muitos perdem os ideais do calouro e viram máquinas de produzir notícias. Não é isso que ela quer. Ela ainda acha que pode mudar o mundo. Talvez não literalmente, mas mostrará essa realidade com uma dose extra de paixão pelo que faz.

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