Entre a ficção e a realidade

Mais que imagens e algumas gargalhadas.
Mais que imagens e algumas gargalhadas.

Sala cheia. Mais alguns minutos e não teríamos conseguido comprar os ingressos.

Sentei ao lado de um casal. O cinema costuma ser um ambiente bastante propício para gente que gosta de falar sem parar, comentar cenas quando deve ficar calado, rir alto demais ou jogar pipoca nas pessoas. [Sou meio chata para essas coisas]. Gosto de assistir ao filme quietinha, concentrada. Mas não dá para ficar isolada em casa por conta disso né?

Então… foco as minhas atenções naquele momento. Durante 90 minutos ou mais, sou apenas a mulher sentada na sala de cinema. Bebo o meu chá preferido. Enquanto isso, uma menina de seis anos aparece na tela. Fala de seus sonhos, suas expectativas. Tem muita firmeza em seu discurso. Mas o que ela realmente representa é a possibilidade de realizar tudo isso, desde que a gente não desista. Afinal, quando a protagonista aparece na fase adulta, está vivendo exatamente aquilo que desejou.

Como muitas mulheres modernas, está estressada por conta do acúmulo de tarefas. As mães são também empresárias, donas de casa, esposas… Desdobram-se em mil pedacinhos para atender a todos. Sentem-se essenciais em cada uma de suas funções. Por isso, não conseguem parar. Não suportam a ideia de abandonar aqueles que precisam delas. O instinto fala mais alto. Além disso, há um gostinho de super mulher. Afinal, para dar conta de tudo, só tendo super poderes mesmo.

Em meio a essa bagunça, o marido da personagem se vê quase que abandonado. Sente falta das pequenas coisas. De um abraço antes de acordar, de um passeio em família, de uma parceira. Casar não é apenas dividir o mesmo espaço,  criar filhos e pagar as contas, mas dividir uma vida. Hoje, com os tablets, smartphones e afins, as pessoas têm estado cada vez mais distantes. Conectadas ao Facebook, mas não àqueles que realmente importam.

Ela mente. Passa a ideia de que fazer isso é natural. E, para muitos, realmente é. Mente por medo da reação do marido, por querer evitar brigas e talvez, só talvez, por querer fazer tudo sozinha. Temos essa necessidade de alimentar nosso ego, de saber que podemos, que somos capazes de realizar algo sem depender do outro. Por capricho ou por puro necessidade de reafirmar nossa individualidade.

Tais atitudes minam seu relacionamento. As mentiras crescem, precisam ser alimentadas com novas mentiras e, mais cedo ou mais tarde, a pessoa é descoberta. Mentir desgasta. Um professor de filosofia disse uma vez que a gente pode fingir por muito tempo, mas não o tempo todo. Uma hora, a máscara cai.

Alice (Ingrid Guimarães) descobre o beijo do marido com outra mulher. Ele vai embora, como se fosse a vítima, como se tudo que ela fez justificasse a atitude dele. Isso reflete um comportamento que é nosso: se o outro fez algo ruim para mim, eu posso revidar. Pensamos que temos esse direito e que fica tudo bem quando estamos quites. Esse tipo de atitude só estimula ainda mais atitudes vingativas.

A mãe da moça interfere na situação. Existem muitas mães e sogras que fazem isso. Deixam os filhos saírem de casa, mas não se desligam deles de verdade. Continuam batendo à porta para saber se está tudo bem e se não precisam delas para alguma coisa. Típico, quando o casal não estabelece alguns limites. Mas essa senhora disse algo que me chamou atenção. Foi algo como…

Tenho medo das pessoas que dizem que tem relacionamentos sólidos. Para mim, eles são como represas. Está tudo indo bem, muito estruturado. Mas, basta uma rachadura e tudo se esvai. Eu prefiro ter um relacionamento que está sempre por um fio. Um fio de aço, que estica, dobra, mas não rompe.

Espera aí! Então, vamos todos viver em pé de guerra com o marido ou a esposa, inseguros de que o casamento possa acabar a qualquer instante e fica tudo bem? É assim que deve ser? Para mim, esse foi um dos maiores absurdos do filme, mas, ao que parece, as mulheres casadas na sala entenderam como algo positivo. Penso até que se sentiram confortadas. Afinal, “tenho um casamento modelo”, podem ter pensado. Ou ainda, “é normal viver assim”. Não gente, não é!

Eu ouvi muitas risadas. Ri muitas vezes. Mas acredito que o filme mostrou diversos comportamentos nossos que precisam ser abolidos, incentivou coisas boas e ruins, porém, a maioria das pessoas nem deve ter percebido. Exemplo: a persistência e determinação em conquistar nossos sonhos; os prós e contras da vida de uma mulher moderna; como a nossa vida mudou depois das tecnologias; a mentira como artifício natural; a traição como vingança justificada; interferências dos familiares e mais, a valorização de relacionamentos desestruturados.

Um amigo costuma dizer que o humor pode ser perigoso, pois nos faz aceitar coisas que não aceitaríamos normalmente. Ele também diz que assistir a filmes que incentivam comportamentos e até pensamentos como esses que citei influenciam as nossas atitudes na vida real. Passamos a enxergar certas ações e aceitá-las como naturais. Achamos normal viver aos berros com o marido, trabalhar feito loucos (a ponto de ter um colapso nervoso como Alice), colocar a empresa antes da família, deixar que as pessoas interfiram em nosso relacionamento e até a mentir com frequência.

Permitimos que a ficção assuma um papel importante em nossa realidade. Fazemos isso com filmes, novelas, seriados e reality shows. Cuidamos pouco daquilo que nos cerca, por não percebermos o quanto nos transforma. Isso não quer dizer que as produções têm o objetivo de educar ou sugerir comportamentos, mas o nosso cérebro não sabe disso. Ele se acostuma com as imagens. O que era incomum passa a ser comum e acabamos até observando aquilo que antes nem notávamos. No meio de toda a graça, desejos são despertados, hábitos são realimentados – inclusive o de mentir para quem amamos, sob a justificativa de ser uma “causa nobre”. Por imitação, ainda que inconscientes, transferimos para o real aquilo que assistimos na tela do cinema.

No fim das contas, De pernas pro ar 2 é um filme que representa muitas questões atuais, dramas universais e retrata um cenário bastante corriqueiro para a maioria de nós. Em relação à produção “original”, tem mais apelo emocional/comportamental do que sexual, mas não deixa de ser, ao meu ver, um filme só para adultos. Ahhh, não posso deixar de mencionar que houve cenas “no estrangeiro” (New York). Aposto que o pessoal que adora menosprezar o cinema brasileiro não contava com essa [risos]. Se vale a pena assistir? Sinceramente, eu não veria de novo, mas é você quem decide.

depernasproar2

Gênero: Comédia

Lançamento: 2012 (Brasil)

Direção: Roberto Santucci

Produção: Camila Medina

Produtoras: Globo Filmes e Downtown Filmes

Sequência de: De Pernas pro ar (2010)

Premiação: Indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original)

Stars: 2

 

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